quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Pequenos fantasmas, de Humberto Werneck

 



    Residindo atualmente em Campo Grande (MS), não pude ir ao lançamento do livro Pequenos fantasmas, que Humberto Werneck lançou, em edição comercial, no dia 24 de fevereiro de 2026, no Edifício Copan, em São Paulo (SP). Lembrei-me, então, de um texto que escrevi sobre o livro, que li na edição fora do comércio com a qual o autor me presenteou em 2007. Publicado originalmente no jornal Estado de Minas (uma cópia pode ser visualizada clicando aqui), o texto estava praticamente inacessível. Sejam bem-vindos, mais uma vez, os contos de Pequenos fantasmas!



Passado ainda presente*


Pequenos fantasmas é um título atual para um livro que demorou a nascer. Quase toda a obra foi escrita em Belo Horizonte entre 1965 e 1970 e se fosse publicado naquele momento seria conhecido como Primeiro movimento. Como o título anunciava, tratava-se de um livro de estreia que poderia lançar o seu autor na vida literária de Minas e do país. Um importante contista mineiro chamado Murilo Rubião estimulava então o jovem escritor que abriu mão da publicação e retirou o livro da fila de espera da Imprensa Publicações. Esse jovem escritor é o mesmo autor de O desatino da rapaziada: o jornalista Humberto Werneck.

Se o primeiro título se lançava a um futuro literário, o definitivo lança um olhar para o passado como quem faz uma revisão da vida. Sua publicação tem lugar garantido não só pelo fato de ser parte de alguma forma da melhor época do Suplemento Literário, mas pela qualidade literária que possui e que permitiu a sua vinda recente em 2005. Além dos nove contos escritos até 1970, que inspiraram o nome Novesfora da editora, Pequenos fantasmas traz ainda um conto escrito por Werneck em São Paulo, em 1977. O livro no entanto não entrou ainda no circuito comercial. Seu autor optou por uma edição particular, muito bem cuidada por sinal, limitada a 500 exemplares numerados e assinados. Os contos publicados no Suplemento Literário, por sua vez, estão acessíveis no site www.letras.ufmg.br/websuplit.

Livro que demora muito a ser publicado merece nota explicativa e Werneck o faz alegando “livrar-se do livro”. Diz isso após salientar que livro pronto na gaveta, além de todo o desconforto que gera, corre o risco de virar fantasma e talvez atormentar o seu criador. Pequenos fantasmas é ainda dedicado a Jaime Prado Gouvêa e Carlos Roberto Pellegrino e traz ilustração de Cláudio Cretti.

Pode-se dizer que o livro começa pelo ócio da infância e termina com o ócio da velhice, do pós-aposentadoria. O primeiro conto, que se chama “Menino no quintal”, apresenta ao leitor uma criança observadora que passa toda a manhã a brincar no terreiro de sua casa. O convite à especulação, trazido pelo ócio, leva o menino a se perguntar sobre as coisas do quintal e sobre tudo que o rodeia, desde a origem das formigas até os episódios da vizinhança. A liberdade matutina acabaria de algum modo com tarde que passaria na escola para recomeçar em seguida. A ideia de fazer uma pequena horta funciona nesse sentido como um ingressar na vida prática assim como a aposentadoria no último conto, “A invasão”, representará o fim desta mesma fase.

É interessante observar que este primeiro conto anuncia uma outra perspectiva que possui relação com a já traçada: a do inevitável correr do tempo. Após dizer que a bacia de alumínio “recolhia o tempo debaixo da torneira de nariz escorrendo”, o texto termina com a torneira “pingapingando sempressamente”, ou seja, com o tempo passando, sem pressa, mas também sem interrupção.

O conto “Vagalume” dá continuidade ao tema da infância. Nesta estória um menino se depara com o tema do amor e da sexualidade. Por um lado quer se casar com a menina Joaninha para quem promete pegar o maior vagalume do mundo, que ela deixará iluminando aos pés da santa. Por outro tem vergonha de não saber como as pessoas são geradas ou nascem. O susto da descoberta sobre o sexo lhe fará, sem querer, perder o vagalume. A perda do vagalume, espécie de símbolo-chave para o amor e para a perda da inocência, também revela a possibilidade de leitura da obra pelo viés da perda.

“Oito anos”, ainda sobre o tema da infância, é uma estória de perda familiar. O personagem-menino Dudu é acordado de madrugada com a notícia de que sua irmã Marialice não está bem. O personagem, que fica com o pensamento dividido entre o aniversário próximo e o estado da irmã, é levado pelo padrinho e pela tia para a cidade, onde seus pais e ela já estavam. No carro fica sabendo que sua irmã morreu e que não terá festa de aniversário para ele naquele ano. O último parágrafo, no qual Dudu escolhe o presente que quer ganhar, além da perspectiva infantil, mostra bem um duplo movimento do livro: o de que as perdas são tratadas com uma certa naturalidade e o de que, embora o sentimento de perda, a vida continua.

Do quarto conto em diante aborda-se o mundo adulto. De todos eles, porém, podemos separar quatro contos, os sequentes, que tratam do aspecto mais conjugal ou familiar deste tema maior. Assim sendo, em “Acontecimento de família”, os personagens não são nomeados, mas se trata da gravidez da filha e de como o pai recebe a notícia, que é dada pela mãe. O homem da casa perde a paz de seus dias. A sua mulher torna-se mãe de “moça falada”. O nascimento do neto traz de volta o cotidiano perdido, o que é simbolizado no fato de o pai voltar a fumar.

Em “O condenado”, que é talvez o melhor conto do livro, o teor sugestivo está ligado à frieza do personagem que, numa madrugada, acabou matando o rapaz com quem vivia. Este era seu filho ou foi criado como tal. Nessa época a mulher já não vivia consigo. Com a chegada da polícia, o homem abriu uma das janelas da casa, o que, além de desviar a atenção dos investigadores, demonstra a frieza do homem, que sabia que o “invasor” tinha a chave da porta. É justamente essa frieza, se podemos chamar assim, ou loucura, que amarra toda a estória e impressiona tanto.

 “Febre aos 39 graus”, por sua vez, trata de um homem casado e fiel, que, aos 39 anos, resolve aceitar um convite dos amigos e ter uma “noitada diferente”. Tendo retornado à sua casa entre cinco e meia ou seis horas, depara-se com o olhar de sua esposa. Por um momento, a lembrança da mocinha do clube e a imagem da sua mulher se chocam na sua mente. A mulher o indaga apenas com o olhar e o café é servido. O dia corre normalmente.

“Quarta-feira”, pode-se dizer, é o último conto dessa série sobre o tema da família. O título indica o dia da semana em que o personagem-presidiário recebia visitas. Sua mulher Elza e os filhos, que o veem com frequência, interrompem suas idas. A mulher alega problema de varizes e o personagem, também narrador, nos diz que é comum ela ter esse incômodo quando está grávida. Um parêntesis marca ainda mais a insinuação de um outro relacionamento da mulher: “o que não é o caso agora, é claro!”. O presidiário, que tem muito a dizer à mulher, prefere acreditar que se trata de outro problema. O conto termina com a imagem de liberdade: um pardal comendo farelo de pão que o personagem deixou na janela.

Um bedel chamado Boaventura Mendes é o personagem principal do conto “Do terceiro andar”. O título anuncia o lugar de onde o funcionário — o único homem que trabalha no colégio — observa as alunas do curso Normal, no momento em que elas fazem ginástica. Neste conto vale o ditado de que quem observa também pode ser observado. As colegiais o desenham, tentam adivinhar a sua idade, acenam do pátio, etc. O bedel sabe, em sua admiração, que um dia elas irão embora. Mas a promessa de amadurecimento das mais novas o consola.

O penúltimo conto do livro, “O doloroso dever”, era o último da primeira versão. Observado por esse ângulo, o livro terminaria justamente com um conto que trata da morte, velório e procissão fúnebre de um velho que era viúvo e vivia sozinho. Tudo é registrado em pormenores: o horário em que o velho morreu, o desligamento do balão de oxigênio, o choro, o atestado de óbito, a arrumação do defunto, os telefonemas e a confecção do convite fúnebre, o caixão e o velório, a vinda do padre e o saimento. Ao final, sem nenhum corpo a velar e, portanto, marcada a perda, os parentes são impelidos pela vida e surge a discussão da herança do velho que, mesquinhamente, juntou dinheiro.

O último conto do livro, como já anunciamos, trata da estória do engenheiro Aderbal Matoso da Fonseca que se aposenta. Tendo vivido quase toda a vida em hotéis, resolve ter a casa própria. Sem avisar aos amigos, muda-se, aposentado, para seu novo lar, que carece de móveis. Começa então um curioso movimento no conto: tudo o que o personagem deseja para a sua casa lhe é entregue em seguida já pago. Também reside aí a explicação do título: “A invasão”. No início o personagem se irrita, vai à loja e vê um cheque assinado por ele. Este acontecimento vai se repetindo no conto até que chega ao absurdo de as compras chegarem antes mesmo que ele as pensasse ou desejasse. Os vizinhos invadem a sua casa em busca de diversão. Instrumentos musicais são entregues e as festas se tornam ininterruptas em “seu lar”. O engenheiro resolve então abandonar a sua casa. Com dificuldade pega um táxi. A imagem da colina e do mar não impedem no entanto que os carregadores o localizem o devolvam à casa para que seja possível entregar um piano Bechstein, daqueles de cauda.

Como tentei demonstrar neste texto, há vários temas que se entrelaçam no livro de Humberto Werneck. Há uma nítida progressão no desenvolvimento do tema: estórias que tratam da infância, do mundo adulto, da velhice e morte. Werneck conservou a ordem cronológica, mas não seria estranho, nesse sentido, se os dois últimos contos viessem em lugares trocados. Alguns contos seguem a ideia da observação, como o primeiro e “Quarta-feira”. Outros beiram a crônica. “Vagalume” me pareceu mais poético. “A invasão” é realmente um trabalho com o estranho ou o insólito e vários contos têm em comum personagens solitários.

Duas coisas merecem ainda ser lembradas. Os contos de Humberto Werneck de maneira geral se identificam com aquele fazer literário que não entrega os fatos de imediato ao leitor. Ao contrário, estimula-o a imaginar, seja lançando perguntas em meio à narrativa, seja não nomeando ou ainda revestindo tudo de algum mistério. O segundo ponto é na verdade algo já dito aqui. Há, entremeado em todo o livro, um sentimento de perda que é sempre, ou quase sempre, encarado com naturalidade. O cotidiano, que se impõem, e o gotejar do tempo, anunciado desde o primeiro conto, impelem os personagens para o prosseguimento da vida.

Cabe lembrar mais uma vez que os contos abordados neste artigo, embora se trate de ficção e, por isso também, sejam atemporais, referem-se às décadas de sessenta e setenta. Assim sendo, foram escritos, em sua maioria, aos vinte ou vinte poucos anos do autor. Não sei dizer se Humberto Werneck ainda escreve contos ou mesmo possui planos nesse sentido, talvez não, mas não seria mal se ele pudesse nos presentear com um novo livro. Já a entrada de Pequenos fantasmas para a circulação comercial parece-me ser questão de tempo.


Marcos Vinícius Teixeira



* Artigo escrito em 2007, publicado no jornal Estado de Minas. Cf. TEIXEIRA, Marcos Vinícius. Passado ainda presente. Caderno Pensar - Estado de Minas. Belo Horizonte: S/A Estado de Minas, 8 dez. 2007. p. 5. ISSN 1809-9874.