domingo, 1 de março de 2026

Constância, de Dírlen Loyolla

 

O ser e sua inconstância: a poética de Dírlen Loyolla


“Hoje eu sou mais um que se despedaça”

 

A poesia de Constância nos conquista de variado modo e também nos revela, pouco a pouco, que há muitos meios de se adentrar no universo poético de Dírlen Loyolla. Dentre as diversas tensões existentes na obra, até o que parece não tencionado pode ocultar a seu modo o seu contrário. A começar pelo título do livro que nos remete ao que é permanente, calmo e frequente, mas que poderá revelar justamente o contrário: um ser em que a inconstância é o que mais se repete e se perpetua. Tal como a imagem do rio de Heráclito utilizada como epígrafe que, sendo o mesmo rio, é outro, há uma descontinuidade no ser, que se fragmenta continuamente. Como é afirmado em um dos versos mais emblemáticos da obra, temos “um ser provisório girando no sempre do mundo”. A ideia de inacabado, no entanto, pode ser vista dentro e fora do eu que se faz presente na obra. Por um lado, é um ser que se despedaça e se sabe inconstante e provisório. Por outro, há uma dimensão fortemente lírica, presente em vários poemas, que parece fragmentar o amor ou buscá-lo na figura de uma amada, Constância, que também se despedaça em vários e diferentes alumbramentos (Constância também é um nome de mulher!). Parece feita de sal e vidro, como no poema, sangrando a onda que se aproxima para depois vê-la retornar incutida de dor e solidão. O diálogo com a tradição lírica é presente em vários momentos: “E se Constância for o nome do calvário?”.

Assim, Constância também pode ser entendida como o nome de um motivo poético maior ao qual podemos chamar de musa. Constante é o ser que se despedaça numa busca dentro e fora de si. Por isso é também inconstante, errando num jogo entre o ser e o amor, que, sendo constante somente pela inconstância, atormenta o eu que pensa o mundo, que busca por sentido e que passa. E se acaso o “poema de amor chegar”, como se anuncia em uma quadra, o eu-lírico sabe que serão dois corpos em busca de sentido. Sabe que não há completude, nem rumo certo, como barcos que navegam ao sabor do mar após o naufrágio.

Em relação ao ser, ora a ideia nos aparece na imagem do barco sobre as águas, ora a voz que se anuncia poeticamente parece estar como um corpo se equilibrando sobre as ondas de um rio ou do mar. O poeta, ou este que se anuncia como tal, é arrastado pelas águas assim como o ser que é levado pela vida e segue rumo ao incerto ou paira feito um náufrago refletindo sobre o amor e sobre a vida. Os elementos remontam à longa tradição literária, e ao leitor perspicaz não faltarão indícios para investigar esse diálogo em contraposição ao universo individual que se percebe pela obra. Como é dito em um poema, nas águas, os pés não tocam o fundo do rio. Em outro, o eu-lírico se anuncia como um misto de raiz e folha ao vento, entre aquilo que permanece e o que se esvai constantemente. Os elementos da natureza, aliás, estão presentes na poesia de Dírlen Loyolla, que soube trabalhar de forma magistral a força poética detentora de cada um deles.

Em seu fazer literário, destaca-se, talvez mais do que tudo, certa dimensão musical. Embora trabalhe também com versos curtos, o poeta tem nítida preferência pelo verso de metro longo, que, de forma surpreendente, soube trabalhar com sonoridade própria e exemplar. Tal qual a presença de elementos como a água e o vento, há um movimento ritmado presente em sua poesia que se revela como construção sonora. Daí o verso longo, que serpenteia ritmado na leitura. Vejamos, por exemplo, dois versos retirados de “Reticência”: “e eu não vou me deixar acertar como alvo sendo ponteiro em certo sentido não sido no / fundo perdido de um quase-lugar, de um quase-tempo”. Há, como se vê, um ritmo ternário presente na quase totalidade da constituição desses versos, que ganha relevo pelo jogo de rimas internas. Assim, a leitura segue ritmada se alterando um pouco no meio e ao final do segundo verso, mas de maneira melódica, harmoniosa.

Há, nesse sentido, uma nítida preocupação com o ritmo e caberá ao leitor ajustar o seu ouvido ao verso magistral desta obra. Além da marcação, ora mais sincopada, ora mais melodiosa, o leitor se deparará com sonoridades que nos remetem ao universo da música de um modo especial. É o caso do poema “Gis”, que na alternância dos termos gis, giz, quis e bis, somados à assonância em i presente nos versos, funciona como um compasso musical, que estrutura sonoramente todo o poema e divide os versos de acordo com o som. Em outros momentos, o jogo de assonâncias e aliterações cria uma moldura no verso, como se pode observa em “Não há lugar para quem ama quem ama não ter lugar...”. Observe-se que o verso se inicia com a presença fônica de u na primeira e na terceira palavra, passa-se em seguida a uma sonoridade marcada em a e em e, e retoma ao final o som do u, que abrindo e fechando o verso, emoldura-o. Em outro momento, no poema “Danielle Fardin”, a sonoridade que encontramos nos versos parece extraída do nome próprio da pessoa homenageada. Leia-se por exemplo o verso “Sim, Danielle Fardin” ou os versos “Ah, Danielle Fardin, Danielle Fardin, / por que deve ser assim o assim de nosso encanto?”, em que, no segundo verso, o som do i aparece ilhado, mas em diálogo com o referido nome pela rima constituída.

Esse poema, assim como vários outros que recebem dedicatórias do autor, revela também como poesia e vida se unem na poética de Loyolla. Tudo o que soa experiência, no entanto, é claro material para a boa poesia que lapidou, ou (por que não?) musicou: “Hoje me foge um samba pelos dedos sobre a mesa”. Certa vez, aliás, o poeta me confessou que descobriu a poesia primeiro pela música popular brasileira, que seu pai lhe apresentara ainda na infância, e que aperfeiçoaria depois pelas leituras, inclusive por sua reconhecida trajetória acadêmica.

Para esse compositor de poesias, a linguagem é livre e inventiva. Por isso, também será necessário que o leitor, muitas vezes, guarde os óculos das leituras anteriores. Se não os tiver, é até melhor, pois substantivos podem virar verbos, conjugar e ganhar pronomes, construindo versos instigantes como “Taça-me na língua líquido derrama água-me os pés sem chão”. Em outro momento, por exemplo, a palavra hamar pode trazer uma pluralidade de significação, que não seria possível na outra modalidade da língua. Por isso, a aparição de uma única mesóclise no livro não causará estranhamento, pois as inovações em matéria de linguagem realizadas pelo poeta beberam na tradição e o uso ritmado que faz do verso o permite com naturalidade. O arcaico se torna contemporâneo.

Apesar de só agora publicada, Constância é obra que passou por um considerável período de maturação, acompanhando o seu autor por vários lugares do país. Havia lido ou ouvido de seu criador um ou outro poema em nossa juventude universitária, quando fomos colegas de Letras na Universidade Federal de Ouro Preto, e aguardava secretamente a publicação de seu livro. Ao lê-lo agora percebi que algumas passagens de certos poemas já me eram conhecidas e de outras tinha comigo algumas imagens consistentes guardadas na memória. Por isso, poemas como “Poeta de aluvião”, “A boca absoluta” e “Primeira caça ao ser ausente” são para mim exemplos já consagrados de um poeta que só agora se poderá, de fato, conhecer. Os poemas reunidos em Constância são detentores desta força poética, que fazem de Dírlen Loyolla um grande escritor.

 

Marcos Vinícius Teixeira

Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul



Texto originalmente publicado como prefácio do livro Constância. Cf. TEIXEIRA, Marcos Vinícius. O ser e sua inconstância: a poética de Dírlen Loyolla. In: LOYOLLA, Dírlen. Constância. Goiânia: Mondru, 2025, p. 10-15.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Pequenos fantasmas, de Humberto Werneck

 



    Residindo atualmente em Campo Grande (MS), não pude ir ao lançamento do livro Pequenos fantasmas, que Humberto Werneck lançou, em edição comercial, no dia 24 de fevereiro de 2026, no Edifício Copan, em São Paulo (SP). Lembrei-me, então, de um texto que escrevi sobre o livro, que li na edição fora do comércio com a qual o autor me presenteou em 2007. Publicado originalmente no jornal Estado de Minas (uma cópia pode ser visualizada clicando aqui), o texto estava praticamente inacessível. Sejam bem-vindos, mais uma vez, os contos de Pequenos fantasmas!



Passado ainda presente*


Pequenos fantasmas é um título atual para um livro que demorou a nascer. Quase toda a obra foi escrita em Belo Horizonte entre 1965 e 1970 e se fosse publicado naquele momento seria conhecido como Primeiro movimento. Como o título anunciava, tratava-se de um livro de estreia que poderia lançar o seu autor na vida literária de Minas e do país. Um importante contista mineiro chamado Murilo Rubião estimulava então o jovem escritor que abriu mão da publicação e retirou o livro da fila de espera da Imprensa Publicações. Esse jovem escritor é o mesmo autor de O desatino da rapaziada: o jornalista Humberto Werneck.

Se o primeiro título se lançava a um futuro literário, o definitivo lança um olhar para o passado como quem faz uma revisão da vida. Sua publicação tem lugar garantido não só pelo fato de ser parte de alguma forma da melhor época do Suplemento Literário, mas pela qualidade literária que possui e que permitiu a sua vinda recente em 2005. Além dos nove contos escritos até 1970, que inspiraram o nome Novesfora da editora, Pequenos fantasmas traz ainda um conto escrito por Werneck em São Paulo, em 1977. O livro no entanto não entrou ainda no circuito comercial. Seu autor optou por uma edição particular, muito bem cuidada por sinal, limitada a 500 exemplares numerados e assinados. Os contos publicados no Suplemento Literário, por sua vez, estão acessíveis no site www.letras.ufmg.br/websuplit.

Livro que demora muito a ser publicado merece nota explicativa e Werneck o faz alegando “livrar-se do livro”. Diz isso após salientar que livro pronto na gaveta, além de todo o desconforto que gera, corre o risco de virar fantasma e talvez atormentar o seu criador. Pequenos fantasmas é ainda dedicado a Jaime Prado Gouvêa e Carlos Roberto Pellegrino e traz ilustração de Cláudio Cretti.

Pode-se dizer que o livro começa pelo ócio da infância e termina com o ócio da velhice, do pós-aposentadoria. O primeiro conto, que se chama “Menino no quintal”, apresenta ao leitor uma criança observadora que passa toda a manhã a brincar no terreiro de sua casa. O convite à especulação, trazido pelo ócio, leva o menino a se perguntar sobre as coisas do quintal e sobre tudo que o rodeia, desde a origem das formigas até os episódios da vizinhança. A liberdade matutina acabaria de algum modo com tarde que passaria na escola para recomeçar em seguida. A ideia de fazer uma pequena horta funciona nesse sentido como um ingressar na vida prática assim como a aposentadoria no último conto, “A invasão”, representará o fim desta mesma fase.

É interessante observar que este primeiro conto anuncia uma outra perspectiva que possui relação com a já traçada: a do inevitável correr do tempo. Após dizer que a bacia de alumínio “recolhia o tempo debaixo da torneira de nariz escorrendo”, o texto termina com a torneira “pingapingando sempressamente”, ou seja, com o tempo passando, sem pressa, mas também sem interrupção.

O conto “Vagalume” dá continuidade ao tema da infância. Nesta estória um menino se depara com o tema do amor e da sexualidade. Por um lado quer se casar com a menina Joaninha para quem promete pegar o maior vagalume do mundo, que ela deixará iluminando aos pés da santa. Por outro tem vergonha de não saber como as pessoas são geradas ou nascem. O susto da descoberta sobre o sexo lhe fará, sem querer, perder o vagalume. A perda do vagalume, espécie de símbolo-chave para o amor e para a perda da inocência, também revela a possibilidade de leitura da obra pelo viés da perda.

“Oito anos”, ainda sobre o tema da infância, é uma estória de perda familiar. O personagem-menino Dudu é acordado de madrugada com a notícia de que sua irmã Marialice não está bem. O personagem, que fica com o pensamento dividido entre o aniversário próximo e o estado da irmã, é levado pelo padrinho e pela tia para a cidade, onde seus pais e ela já estavam. No carro fica sabendo que sua irmã morreu e que não terá festa de aniversário para ele naquele ano. O último parágrafo, no qual Dudu escolhe o presente que quer ganhar, além da perspectiva infantil, mostra bem um duplo movimento do livro: o de que as perdas são tratadas com uma certa naturalidade e o de que, embora o sentimento de perda, a vida continua.

Do quarto conto em diante aborda-se o mundo adulto. De todos eles, porém, podemos separar quatro contos, os sequentes, que tratam do aspecto mais conjugal ou familiar deste tema maior. Assim sendo, em “Acontecimento de família”, os personagens não são nomeados, mas se trata da gravidez da filha e de como o pai recebe a notícia, que é dada pela mãe. O homem da casa perde a paz de seus dias. A sua mulher torna-se mãe de “moça falada”. O nascimento do neto traz de volta o cotidiano perdido, o que é simbolizado no fato de o pai voltar a fumar.

Em “O condenado”, que é talvez o melhor conto do livro, o teor sugestivo está ligado à frieza do personagem que, numa madrugada, acabou matando o rapaz com quem vivia. Este era seu filho ou foi criado como tal. Nessa época a mulher já não vivia consigo. Com a chegada da polícia, o homem abriu uma das janelas da casa, o que, além de desviar a atenção dos investigadores, demonstra a frieza do homem, que sabia que o “invasor” tinha a chave da porta. É justamente essa frieza, se podemos chamar assim, ou loucura, que amarra toda a estória e impressiona tanto.

 “Febre aos 39 graus”, por sua vez, trata de um homem casado e fiel, que, aos 39 anos, resolve aceitar um convite dos amigos e ter uma “noitada diferente”. Tendo retornado à sua casa entre cinco e meia ou seis horas, depara-se com o olhar de sua esposa. Por um momento, a lembrança da mocinha do clube e a imagem da sua mulher se chocam na sua mente. A mulher o indaga apenas com o olhar e o café é servido. O dia corre normalmente.

“Quarta-feira”, pode-se dizer, é o último conto dessa série sobre o tema da família. O título indica o dia da semana em que o personagem-presidiário recebia visitas. Sua mulher Elza e os filhos, que o veem com frequência, interrompem suas idas. A mulher alega problema de varizes e o personagem, também narrador, nos diz que é comum ela ter esse incômodo quando está grávida. Um parêntesis marca ainda mais a insinuação de um outro relacionamento da mulher: “o que não é o caso agora, é claro!”. O presidiário, que tem muito a dizer à mulher, prefere acreditar que se trata de outro problema. O conto termina com a imagem de liberdade: um pardal comendo farelo de pão que o personagem deixou na janela.

Um bedel chamado Boaventura Mendes é o personagem principal do conto “Do terceiro andar”. O título anuncia o lugar de onde o funcionário — o único homem que trabalha no colégio — observa as alunas do curso Normal, no momento em que elas fazem ginástica. Neste conto vale o ditado de que quem observa também pode ser observado. As colegiais o desenham, tentam adivinhar a sua idade, acenam do pátio, etc. O bedel sabe, em sua admiração, que um dia elas irão embora. Mas a promessa de amadurecimento das mais novas o consola.

O penúltimo conto do livro, “O doloroso dever”, era o último da primeira versão. Observado por esse ângulo, o livro terminaria justamente com um conto que trata da morte, velório e procissão fúnebre de um velho que era viúvo e vivia sozinho. Tudo é registrado em pormenores: o horário em que o velho morreu, o desligamento do balão de oxigênio, o choro, o atestado de óbito, a arrumação do defunto, os telefonemas e a confecção do convite fúnebre, o caixão e o velório, a vinda do padre e o saimento. Ao final, sem nenhum corpo a velar e, portanto, marcada a perda, os parentes são impelidos pela vida e surge a discussão da herança do velho que, mesquinhamente, juntou dinheiro.

O último conto do livro, como já anunciamos, trata da estória do engenheiro Aderbal Matoso da Fonseca que se aposenta. Tendo vivido quase toda a vida em hotéis, resolve ter a casa própria. Sem avisar aos amigos, muda-se, aposentado, para seu novo lar, que carece de móveis. Começa então um curioso movimento no conto: tudo o que o personagem deseja para a sua casa lhe é entregue em seguida já pago. Também reside aí a explicação do título: “A invasão”. No início o personagem se irrita, vai à loja e vê um cheque assinado por ele. Este acontecimento vai se repetindo no conto até que chega ao absurdo de as compras chegarem antes mesmo que ele as pensasse ou desejasse. Os vizinhos invadem a sua casa em busca de diversão. Instrumentos musicais são entregues e as festas se tornam ininterruptas em “seu lar”. O engenheiro resolve então abandonar a sua casa. Com dificuldade pega um táxi. A imagem da colina e do mar não impedem no entanto que os carregadores o localizem o devolvam à casa para que seja possível entregar um piano Bechstein, daqueles de cauda.

Como tentei demonstrar neste texto, há vários temas que se entrelaçam no livro de Humberto Werneck. Há uma nítida progressão no desenvolvimento do tema: estórias que tratam da infância, do mundo adulto, da velhice e morte. Werneck conservou a ordem cronológica, mas não seria estranho, nesse sentido, se os dois últimos contos viessem em lugares trocados. Alguns contos seguem a ideia da observação, como o primeiro e “Quarta-feira”. Outros beiram a crônica. “Vagalume” me pareceu mais poético. “A invasão” é realmente um trabalho com o estranho ou o insólito e vários contos têm em comum personagens solitários.

Duas coisas merecem ainda ser lembradas. Os contos de Humberto Werneck de maneira geral se identificam com aquele fazer literário que não entrega os fatos de imediato ao leitor. Ao contrário, estimula-o a imaginar, seja lançando perguntas em meio à narrativa, seja não nomeando ou ainda revestindo tudo de algum mistério. O segundo ponto é na verdade algo já dito aqui. Há, entremeado em todo o livro, um sentimento de perda que é sempre, ou quase sempre, encarado com naturalidade. O cotidiano, que se impõem, e o gotejar do tempo, anunciado desde o primeiro conto, impelem os personagens para o prosseguimento da vida.

Cabe lembrar mais uma vez que os contos abordados neste artigo, embora se trate de ficção e, por isso também, sejam atemporais, referem-se às décadas de sessenta e setenta. Assim sendo, foram escritos, em sua maioria, aos vinte ou vinte poucos anos do autor. Não sei dizer se Humberto Werneck ainda escreve contos ou mesmo possui planos nesse sentido, talvez não, mas não seria mal se ele pudesse nos presentear com um novo livro. Já a entrada de Pequenos fantasmas para a circulação comercial parece-me ser questão de tempo.


Marcos Vinícius Teixeira



* Artigo escrito em 2007, publicado no jornal Estado de Minas. Cf. TEIXEIRA, Marcos Vinícius. Passado ainda presente. Caderno Pensar - Estado de Minas. Belo Horizonte: S/A Estado de Minas, 8 dez. 2007. p. 5. ISSN 1809-9874.

sábado, 26 de julho de 2025

Constância, de Dírlen Loyolla

 

        Acabo de receber pelos correios o livro Constância, do poeta e amigo Dírlen Loyolla, publicado pela editora Mondru. É o segundo livro publicado de Dírlen. No entanto, foi escrito antes e, nesse aspecto, é o primeiro. Tive oportunidade de ler parte da obra quando ainda éramos estudantes do ICHS/UFOP, em Mariana (MG), em... (para que dizer o ano, se os poemas são atemporais?) . Constância agora está impressa e já começa a circular! Recomendo! 

Para comprar o livro, clique aqui.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Terra adentro: o percurso de um imigrante italiano

 

 

 

Luciano Cherubini, no livro Terra adentro: do vale do Rio Serchio à Serra Gaúcha, realizou com habilidade e agudeza a difícil tarefa de recontar a história de um personagem desconhecido de nosso país. O Brasil, como sabemos, foi construído e formado por uma infinidade de desconhecidos e investigar a trajetória de um estrangeiro, nesse caso, que para cá imigrou é tarefa útil e necessária, pois o relato da vida de um de nossos antepassados pode iluminar toda uma época que, distante no tempo, corria o risco de perder a sua significação.

Jornalista de formação e com mais de vinte anos de experiência na área, Luciano Cherubini nos conta, neste seu primeiro livro, a vida de seu tataravô, Guliermo Narciso Cherubini ou Guglielmo Cherubini, conforme a fonte que se consultar, que no Brasil adotou o nome de Guilherme. Nascido a 27 de maio de 1854, em Dezza, um pequeno povoado localizado próximo à província de Luca, na região italiana conhecida hoje como Toscana. No entanto, em 1854 ainda não havia ocorrido a unificação do país. Acompanhado de amigos, ele embarca no vapor Ville-de-Santos em Havre, na França, rumo ao Rio de Janeiro no dia 2 de setembro de 1876. A viagem se realiza graças a uma política de imigração do governo imperial brasileiro que incentivava a vinda de estrangeiros.

Terra adentro é uma obra rica em documentos, reproduzindo fotografias, jornais e mapas que auxiliam o leitor a desbravar as terras inóspitas do interior do Rio Grande do Sul para onde Guilherme Cherubini seguiu acompanhado de dois amigos. A colônia Dona Isabel, onde viveu naquele ano é hoje Bento Gonçalves. Em 1880 se casou com Illuminata Eccel, italiana que emigrara com a família para o Brasil e vivia no mesmo povoado gaúcho. Estar casado, na época, era uma condição para que Guilherme pudesse comprar lotes de terra distribuídos pelo governo. Vizinha à Dona Isabel estava a colônia Conde D’Eu que em 1900 se eleva à condição de município, tornando-se Garibaldi. No ano seguinte, Guilherme Cherubini é eleito conselheiro municipal de Garibaldi, cargo correspondente hoje ao de vereador, ensina-nos Luciano em seu livro.

O contexto da Primeira República pode ter trazido benefícios ao imigrante italiano e pode ajudar a compreender a importância que ele possuiu na região. Num período que ficou conhecido pelo voto de cabresto, marcado por eleições fraudulentas, atas falsas, e no qual os resultados das eleições podiam ser alterados posteriormente por grupos poderosos do país, é significativo observar que nas eleições de 1911 a casa de Guilherme Cherubini aparece como endereço de uma das sessões eleitorais do município, onde 50 pessoas deveriam depositar o voto. Antes, em 1907, como lemos no livro de Luciano, Guilherme foi nomeado tenente do primeiro esquadrão da Guarda Nacional. 

Em Terra adentro também se registra a passagem da família de Guilherme Cherubini por Encantado (RS) e depois por Tangará (SC). Dentre os diversos descendentes mencionados no livro, destaca-se o filho João e o seu neto Claudino Cherubini que chegou criança a Tangará acompanhado do avô italiano. Guilherme faleceu nesta pequena cidade, em 1944, aos 89 anos. O livro de Luciano Cherubini, nesse sentido, também registra a continuidade da família de Guilherme que prossegue viva, desdobrada em várias outras famílias, em diversas partes de nosso país continental. Essas histórias, claro, poderão ser contadas em outros livros. 

 

 

 Marcos Vinícius Teixeira

Campo Grande (MS), 03/03/2025

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Situação do coreto de Oscar Niemeyer em Caratinga - 2025

 

 

Em 2014 fiz uma postagem aqui denunciando a reforma que estava em curso no coreto de Oscar Niemeyer na minha cidade natal, em Caratinga - Minas Gerais. Sempre me pareceu um completo equívoco as modificações pelas quais o coreto passou. Posto agora, em janeiro de 2025, fotos do estado atual de nosso patrimônio artístico para que todos possam ver a sua situação. Fechado em suas vidraças, os pedaços de mármore que se descolaram e as infiltrações diversas me lembraram a imagem de um túmulo abandonado. Ou talvez seja o movimento poético da vida impulsionando a obra a se libertar da máscara de pedra que lhe foi imposta?


(Fotos do coreto de Oscar Niemeyer realizadas no dia 17/01/2025.)