Residindo atualmente em Campo Grande (MS), não pude ir ao lançamento do livro Pequenos fantasmas, que Humberto Werneck lançou, em edição comercial, no dia 24 de fevereiro de 2026, no Edifício Copan, em São Paulo (SP). Lembrei-me, então, de um texto que escrevi sobre o livro, que li na edição fora do comércio com a qual o autor me presenteou em 2007. Publicado originalmente no jornal Estado de Minas (uma cópia pode ser visualizada clicando aqui), o texto estava praticamente inacessível. Sejam bem-vindos, mais uma vez, os contos de Pequenos fantasmas!
Passado ainda presente*
Pequenos fantasmas é um título atual
para um livro que demorou a nascer. Quase toda a obra foi escrita em Belo
Horizonte entre 1965 e 1970 e se fosse publicado naquele momento seria
conhecido como Primeiro movimento.
Como o título anunciava, tratava-se de um livro de estreia que poderia lançar o
seu autor na vida literária de Minas e do país. Um importante contista mineiro
chamado Murilo Rubião estimulava então o jovem escritor que abriu mão da
publicação e retirou o livro da fila de espera da Imprensa Publicações. Esse
jovem escritor é o mesmo autor de O
desatino da rapaziada: o jornalista Humberto Werneck.
Se o primeiro título se lançava a um futuro
literário, o definitivo lança um olhar para o passado como quem faz uma revisão
da vida. Sua publicação tem lugar garantido não só pelo fato de ser parte de
alguma forma da melhor época do Suplemento
Literário, mas pela qualidade literária que possui e que permitiu a sua
vinda recente em 2005. Além dos nove contos escritos até 1970, que inspiraram o
nome Novesfora da editora, Pequenos fantasmas traz ainda um conto
escrito por Werneck em São Paulo, em 1977. O livro no entanto não entrou ainda
no circuito comercial. Seu autor optou por uma edição particular, muito bem
cuidada por sinal, limitada a 500 exemplares numerados e assinados. Os contos
publicados no Suplemento Literário,
por sua vez, estão acessíveis no site www.letras.ufmg.br/websuplit.
Livro que
demora muito a ser publicado merece nota explicativa e Werneck o faz alegando
“livrar-se do livro”. Diz isso após salientar que livro pronto na gaveta, além
de todo o desconforto que gera, corre o risco de virar fantasma e talvez
atormentar o seu criador. Pequenos
fantasmas é ainda dedicado a Jaime Prado Gouvêa e Carlos Roberto Pellegrino
e traz ilustração de Cláudio Cretti.
Pode-se dizer
que o livro começa pelo ócio da infância e termina com o ócio da velhice, do
pós-aposentadoria. O primeiro conto, que se chama “Menino no quintal”, apresenta
ao leitor uma criança observadora que passa toda a manhã a brincar no terreiro
de sua casa. O convite à especulação, trazido pelo ócio, leva o menino a se
perguntar sobre as coisas do quintal e sobre tudo que o rodeia, desde a origem
das formigas até os episódios da vizinhança. A liberdade matutina acabaria de
algum modo com tarde que passaria na escola para recomeçar em seguida. A ideia
de fazer uma pequena horta funciona nesse sentido como um ingressar na vida
prática assim como a aposentadoria no último conto, “A invasão”, representará o
fim desta mesma fase.
É interessante
observar que este primeiro conto anuncia uma outra perspectiva que possui
relação com a já traçada: a do inevitável correr do tempo. Após dizer que a
bacia de alumínio “recolhia o tempo debaixo da torneira de nariz escorrendo”, o
texto termina com a torneira “pingapingando sempressamente”, ou seja, com o
tempo passando, sem pressa, mas também sem interrupção.
O conto
“Vagalume” dá continuidade ao tema da infância. Nesta estória um menino se
depara com o tema do amor e da sexualidade. Por um lado quer se casar com a
menina Joaninha para quem promete pegar o maior vagalume do mundo, que ela
deixará iluminando aos pés da santa. Por outro tem vergonha de não saber como
as pessoas são geradas ou nascem. O susto da descoberta sobre o sexo lhe fará,
sem querer, perder o vagalume. A perda do vagalume, espécie de símbolo-chave
para o amor e para a perda da inocência, também revela a possibilidade de
leitura da obra pelo viés da perda.
“Oito anos”,
ainda sobre o tema da infância, é uma estória de perda familiar. O
personagem-menino Dudu é acordado de madrugada com a notícia de que sua irmã
Marialice não está bem. O personagem, que fica com o pensamento dividido entre
o aniversário próximo e o estado da irmã, é levado pelo padrinho e pela tia
para a cidade, onde seus pais e ela já estavam. No carro fica sabendo que sua
irmã morreu e que não terá festa de aniversário para ele naquele ano. O último
parágrafo, no qual Dudu escolhe o presente que quer ganhar, além da perspectiva
infantil, mostra bem um duplo movimento do livro: o de que as perdas são
tratadas com uma certa naturalidade e o de que, embora o sentimento de perda, a
vida continua.
Do quarto
conto em diante aborda-se o mundo adulto. De todos eles, porém, podemos separar
quatro contos, os sequentes, que tratam do aspecto mais conjugal ou familiar
deste tema maior. Assim sendo, em “Acontecimento de família”, os personagens
não são nomeados, mas se trata da gravidez da filha e de como o pai recebe a
notícia, que é dada pela mãe. O homem da casa perde a paz de seus dias. A sua
mulher torna-se mãe de “moça falada”. O nascimento do neto traz de volta o
cotidiano perdido, o que é simbolizado no fato de o pai voltar a fumar.
Em “O
condenado”, que é talvez o melhor conto do livro, o teor sugestivo está ligado
à frieza do personagem que, numa madrugada, acabou matando o rapaz com quem
vivia. Este era seu filho ou foi criado como tal. Nessa época a mulher já não
vivia consigo. Com a chegada da polícia, o homem abriu uma das janelas da casa,
o que, além de desviar a atenção dos investigadores, demonstra a frieza do
homem, que sabia que o “invasor” tinha a chave da porta. É justamente essa
frieza, se podemos chamar assim, ou loucura, que amarra toda a estória e
impressiona tanto.
“Febre aos 39 graus”, por sua vez, trata de um
homem casado e fiel, que, aos 39 anos, resolve aceitar um convite dos amigos e
ter uma “noitada diferente”. Tendo retornado à sua casa entre cinco e meia ou
seis horas, depara-se com o olhar de sua esposa. Por um momento, a lembrança da
mocinha do clube e a imagem da sua mulher se chocam na sua mente. A mulher o
indaga apenas com o olhar e o café é servido. O dia corre normalmente.
“Quarta-feira”,
pode-se dizer, é o último conto dessa série sobre o tema da família. O título
indica o dia da semana em que o personagem-presidiário recebia visitas. Sua
mulher Elza e os filhos, que o veem com frequência, interrompem suas idas. A
mulher alega problema de varizes e o personagem, também narrador, nos diz que é
comum ela ter esse incômodo quando está grávida. Um parêntesis marca ainda mais
a insinuação de um outro relacionamento da mulher: “o que não é o caso agora, é
claro!”. O presidiário, que tem muito a dizer à mulher, prefere acreditar que
se trata de outro problema. O conto termina com a imagem de liberdade: um
pardal comendo farelo de pão que o personagem deixou na janela.
Um bedel
chamado Boaventura Mendes é o personagem principal do conto “Do terceiro
andar”. O título anuncia o lugar de onde o funcionário — o único homem que
trabalha no colégio — observa as alunas do curso Normal, no momento em que elas
fazem ginástica. Neste conto vale o ditado de que quem observa também pode ser
observado. As colegiais o desenham, tentam adivinhar a sua idade, acenam do
pátio, etc. O bedel sabe, em sua admiração, que um dia elas irão embora. Mas a
promessa de amadurecimento das mais novas o consola.
O penúltimo
conto do livro, “O doloroso dever”, era o último da primeira versão. Observado
por esse ângulo, o livro terminaria justamente com um conto que trata da morte,
velório e procissão fúnebre de um velho que era viúvo e vivia sozinho. Tudo é
registrado em pormenores: o horário em que o velho morreu, o desligamento do
balão de oxigênio, o choro, o atestado de óbito, a arrumação do defunto, os
telefonemas e a confecção do convite fúnebre, o caixão e o velório, a vinda do
padre e o saimento. Ao final, sem nenhum corpo a velar e, portanto, marcada a
perda, os parentes são impelidos pela vida e surge a discussão da herança do
velho que, mesquinhamente, juntou dinheiro.
O último conto
do livro, como já anunciamos, trata da estória do engenheiro Aderbal Matoso da
Fonseca que se aposenta. Tendo vivido quase toda a vida em hotéis, resolve ter
a casa própria. Sem avisar aos amigos, muda-se, aposentado, para seu novo lar,
que carece de móveis. Começa então um curioso movimento no conto: tudo o que o
personagem deseja para a sua casa lhe é entregue em seguida já pago. Também
reside aí a explicação do título: “A invasão”. No início o personagem se
irrita, vai à loja e vê um cheque assinado por ele. Este acontecimento vai se
repetindo no conto até que chega ao absurdo de as compras chegarem antes mesmo
que ele as pensasse ou desejasse. Os vizinhos invadem a sua casa em busca de
diversão. Instrumentos musicais são entregues e as festas se tornam
ininterruptas em “seu lar”. O engenheiro resolve então abandonar a sua casa. Com
dificuldade pega um táxi. A imagem da colina e do mar não impedem no entanto
que os carregadores o localizem o devolvam à casa para que seja possível
entregar um piano Bechstein, daqueles de cauda.
Como tentei
demonstrar neste texto, há vários temas que se entrelaçam no livro de Humberto
Werneck. Há uma nítida progressão no desenvolvimento do tema: estórias que
tratam da infância, do mundo adulto, da velhice e morte. Werneck conservou a
ordem cronológica, mas não seria estranho, nesse sentido, se os dois últimos
contos viessem em lugares trocados. Alguns contos seguem a ideia da observação,
como o primeiro e “Quarta-feira”. Outros beiram a crônica. “Vagalume” me
pareceu mais poético. “A invasão” é realmente um trabalho com o estranho ou o
insólito e vários contos têm em comum personagens solitários.
Duas coisas
merecem ainda ser lembradas. Os contos de Humberto Werneck de maneira geral se
identificam com aquele fazer literário que não entrega os fatos de imediato ao
leitor. Ao contrário, estimula-o a imaginar, seja lançando perguntas em meio à
narrativa, seja não nomeando ou ainda revestindo tudo de algum mistério. O
segundo ponto é na verdade algo já dito aqui. Há, entremeado em todo o livro,
um sentimento de perda que é sempre, ou quase sempre, encarado com
naturalidade. O cotidiano, que se impõem, e o gotejar do tempo, anunciado desde
o primeiro conto, impelem os personagens para o prosseguimento da vida.
Cabe lembrar
mais uma vez que os contos abordados neste artigo, embora se trate de ficção e,
por isso também, sejam atemporais, referem-se às décadas de sessenta e setenta.
Assim sendo, foram escritos, em sua maioria, aos vinte ou vinte poucos anos do autor.
Não sei dizer se Humberto Werneck ainda escreve contos ou mesmo possui planos
nesse sentido, talvez não, mas não seria mal se ele pudesse nos presentear com
um novo livro. Já a entrada de Pequenos
fantasmas para a circulação comercial parece-me ser questão de tempo.
Marcos Vinícius Teixeira
* Artigo escrito em 2007, publicado no jornal Estado de Minas. Cf. TEIXEIRA, Marcos Vinícius. Passado ainda presente. Caderno Pensar - Estado de Minas. Belo Horizonte: S/A Estado de Minas, 8 dez. 2007. p. 5. ISSN 1809-9874.
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