A pintura abaixo é do artista plástico Gato, que fez uma série de quadros abordando a cidade de Caratinga-MG. Presente que me foi dado pelo poeta Fernando Campos, a tela traz elementos que desapareceram ou foram danificados por obras ao longo do tempo. O Cine Brasil, que cheguei a frequentar, foi destruído. Já o coreto de Oscar Niemeyer passou por estranha intervenção e foi descaracterizado. Virou um estorvo. Guardo a cidade na pintura do Gato dependurada em minha morada e em minha memória. A Petra Itaúna que se cuide!
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
sábado, 26 de julho de 2014
Poema taxativo
Não há sentido na alvorada
no amanhecer diário e monótono
e milagroso.
Não há sentido nas religiões
e nas suas diversas dicotomias.
Uma voz vinda não se sabe de onde
sussurra baixinho
que deus não vai ajudar,
que a eternidade não existe,
que a alma se dissolveu nos
neurônios.
O amor não existe ou é fogo
ou indefinível sinal de teimosia.
A vida se empilha nos prédios
esparrama-se pelos cantos
à noite cobre-se com papelões
embaixo de marquises.
O vai-e-vem do dia-a-dia
me deixa perplexo e vazio.
O corpo
esse pacote vertical de sangue
apodrece a cada instante vivido.
Uma voz vinda de qualquer lugar
tem coragem de dizer
que os médicos não vão ajudar.
Mas é preciso viver
Alimentar o ser
vestir o pé, o peito, botar camisa
o cinto corrige o corpo disforme.
Afinal, viver é inevitável.
Então levanto-me para a vida
lavo meu rosto, visto-me
escovo meus dentes cariados
disfarço meu mal cheiro
perfumo quem apodrece vivo.
— É preciso viver! digo eu
resoluto.
Pego o elevador
cumprimento as pessoas.
No ônibus
dou bom dia ao motorista
ofereço moedas ao cobrador.
No trabalho sorrio
cumpro todas as obrigações
sem demonstrar cansaço.
Volto apertado no ônibus
(já não digo boa tarde, boa
noite).
Faço a compra do mês
e durante os dias que se seguem
vejo a despensa se esvaziar
e me esvazio também.
Um homem que vive só
sabe que a vida não vale a pena
qualquer jeito de viver.
Em casa, sozinho no escuro,
no silêncio, na ausência de tudo
não é preciso fingir
não é necessário saber.
Os acontecimentos do mundo
sevem para quê?
No entanto a solidão
não suporta a ausência dos amigos.
Por fim recorro ao telefone
(este aparelho útil aos negócios)
sei que não vão poder vir,
sempre ocupados em enriquecer,
mas haverá uma festa na casa da
Joana
ou da Letícia ou da Marília, pouco
importa
é uma amiga alegre.
Então visto-me para a vida alegre
enfrento o trânsito noturno
a correria selvagem da cidade
chego vivo. Todos me cumprimentam
Olá! Quanto tempo! Você sumiu!
Puxo a cadeira, pego o copo vazio
bebo, levanto, abraço todos
a vida parece valer a pena,
canto às mulheres traídas
à nossa vida difícil.
Então a vida é possível?
Essa vida alegre, fingida
e besta dos programas da tv?
Volto bêbado para casa
o apartamento que chamo de lar
me recebe indiferente.
O dia amanhece,
levanto-me, visto-me,
apronto-me para sair,
mas não saio.
Não posso continuar
tão preocupado em sustentar um
corpo
volto para a cama, tento dormir.
Que venha o silêncio, a fome,
o mau cheiro, que o telefone
toque.
Deitado, espero pela morte, que
não vem
teimosa morte...
tenhamos paciência com ela.
Marcos Teixeira
21.02.06
sábado, 12 de julho de 2014
Coreto de Oscar Niemeyer - Caratinga-MG
![]() |
| Fotografia: Wilson Martins |
Acabo de voltar
de Caratinga, cidade mineira onde nasci, passei minha primeira infância e onde
depois vivi muitos anos. Nos dias que passei lá, fiquei muito surpreso ao ver o
coreto hexagonal da principal praça da cidade cercado por tapumes e em obras.
Trata-se de um coreto projetado por Oscar Niemeyer a pedido de Ziraldo. O monumento
se encontra tombado como patrimônio histórico e cultural do povo desde 2002. Que
tipo de obra estariam fazendo no coreto Ronaldinho Calazans? Uma restauração? Infelizmente
não. Para usar uma palavra bonita, faz-se nesse momento uma intervenção. Procurando
mais informações descobri que, dentre outras coisas, vão revestir o nosso
coreto com mármore branco e vão fechar as aberturas com vidro. Disseram-me que
a proposta teria surgido por causa de um problema social, digamos. Achei um
despropósito, se for verdade, porque não se faz melhoria social fechando um bem
público, mas investindo em política social.
Que tipo de obra
se faz então? Restauração não é, pois não se busca a preservação e recuperação
da concepção ou construção original. Podemos chamar de reforma. Mas um bem
tombado ou, ainda que não fosse, uma obra de tal importância, poderia ser alterada
como se faz agora? Quero crer que não. Essa viagem que fiz a Caratinga acabou
me lembrando de outra viagem, bem anterior, feita em dezembro de 1999.
Aproveitava o período de férias (ou era greve?) da UFOP para ir a minha cidade.
Naquele dezembro, prestei serviços para o pessoal do Diário do Aço de Caratinga, jornal que atualmente se chama Diário de Caratinga. Como íamos viver a
virada do ano de 1999 para o ano 2000 fizeram uma série de reportagens sobre a
cidade e resolveram escrever sobre o coreto. Conservei felizmente parte
desse jornal. Naqueles dias, circulou na redação a maquete do coreto e eu tive
uma grande surpresa ao descobrir que a construção deveria ser totalmente
diferente do que é. Na maquete, dá para se observar um afinamento suave em
várias partes do coreto, o que atribuiria grande leveza para o monumento. Na
falta de uma imagem boa, e na esperança de que a maquete reapareça ou imagens
melhores surjam, reproduzo aqui a fotografia que o jornal publicou.
![]() |
| fotografia da maquete do coreto – Diário do Aço - Caratinga |
Vendo a maquete,
que esteve ali, ao alcance de minhas mãos, percebi que quem a conhecesse nunca
mais olharia do mesmo jeito para o coreto da praça, construção pesada, sem os
contornos e os cuidados que o projeto requeria. Mas ainda assim interessante. A
partir daquele dia, passei a defender que qualquer “intervenção” no coreto
tentasse recuperá-lo no sentido de aproximá-lo do que deveria ser. Da mesma
forma que na edição de um livro procuramos respeitar a última vontade do
escritor, intervir naquela construção, para mim, deveria respeitar a vontade de
seu criador. Em se tratando de obra de Oscar Niemeyer a questão se amplia e
ganha relevo maior. Recuperá-la contribuiria também para o turismo da cidade,
que, diga-se de passagem, vem perdendo o Cine Brasil.
Vale a pena
reproduzir aqui um fragmento do jornal que citei, no qual se lê um depoimento do
senhor Carlos Roberto sobre a concepção do coreto:
Levamos farto material retratando a Praça Cesário Alvim. Niemeyer observou como era utilizado o espaço, notando que havia uma TV no jardim, onde várias pessoas se concentravam ao redor. Por isso ele projetou um subsolo no coreto, onde fez arquibancadas e TV embutida. Lembro-me que ele disse que era melhor, para que as pessoas não ficassem ao relento.
(Diário do Aço – Caratinga – edição de réveillon
– 1999-2000)
Como se observa, o coreto foi idealizado para ser um espaço livre, aberto e público. Fechá-lo significa deturpar o seu sentido original. Uma parte dele já havia sido fechada com vidros anteriormente, o que me parece um erro. Continuar a fechá-lo significa, para mim, errar novamente. Ainda que o monumento passe a ter janelas, que o vidro mude de posição e eventualmente possa ser utilizado como coreto, seu sentido primeiro terá sido alterado. Se alguém, com uma viola na mão, não puder utilizá-lo livremente, que sentido terá? Ademais, há formas de preservá-lo e administrá-lo que não requerem vidros e fechaduras. Não gostaria de ver atrás de vidros os profetas de Aleijadinho em Congonhas como não gostaria de ver atrás de vidros a estátua de Drummond no Rio de Janeiro, tantas vezes já vandalizada. Creio que há outros caminhos...
Nunca vi um
coreto fechado. Alguns têm portas na parte de baixo e ficam trancadas, é
verdade. Mas o nosso não foi planejado para ter portas, não foi planejado para
impedir ninguém de adentrá-lo. Ao contrário, foi concebido para ser uma casa de
luz acesa e lugar disponível para todos se assentarem e ver televisão.
Por que então fechá-lo? De todos que vi, a maioria dos coretos não impede a
entrada das pessoas. São abertos, receptivos, livres! Se vão mexer no coreto
hexagonal, restaurem-no! Aproximem-no de seu projeto! Revestir com mármore não
é, nem nunca foi, restauração! Fechar com vidros é aprisionar um espaço dedicado
à liberdade! Da próxima vez que for a Caratinga, quero entrar no coreto, chamar
os amigos para conversar, ouvir o grande Manoel Boca tocar seu violão. A lua
cheia nascerá por trás da pedra Itaúna e as árvores, ouvindo o meu lamento de
liberdade, saberão nos servir uma dose de qualquer bebida. Deitado no coreto, acabarei
dormindo no seio de minha terra.
Marcos Teixeira
06.07.2014
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Cine Brasil
Menino
Maluquinho, erga seus braços, puxe a panela e tampe seus olhos. Estão destruindo
o Cine Brasil. Pedra Itaúna, proteja os olhos da lua. Coreto, peça abrigo às
árvores, pois estão destruindo o Cine Brasil. É mentira? Infelizmente não é!
Ali mesmo, na praça Getúlio Vargas, a nossa praça do relógio. Os olhos dos
caratinguenses é que estão escancarados, boquiabertos, pasmos, estupefatos.
Falta é palavra para caracterizar o espanto do bom e sensato caratinguense. Em
suas gargantas prende-se um grito, contido, torturado, em revolta.
O gigante
Cine Itaúna vai ficando órfão. Perde um irmão. As duas fachadas arredondadas
que tanto me impressionaram na infância vão deixando de existir. Sobrará
alguma? É hora de retornar a Caratinga e perguntar para as pessoas da rua onde
está o Cine Brasil. Alguém o viu? Por que se permitiu tantos miudinhos
destruidores? Desistiu de nós? Sentemos todos no chão da pequena praça e demos
as mãos ao que resta da fachada do Cine Brasil, o nosso amigo moribundo. Venha
menino do Ziraldo, venha grande pedra negra, venham todos.
Tenho
acompanhado tudo pela internet. Vi as pessoas acenderem velas na porta do
cinema, erguerem cartazes, abraçarem-se. Ouvi os gritos contra a destruição. Vi
o último filme do cinema sendo transmitido em sua própria fachada como quem
assiste, ele próprio, ao filme de sua vida, passando diante de si mesmo, como
um relâmpago que antecede o Nada. Reconheci meus amigos lutando pela
preservação da memória material de Caratinga e não pude estar no meio deles.
Com eles, assisto como posso ao velório de um amigo que parte devagar.
O que mais me
espanta, no entanto, nem é tanto a derrubada do nosso cinema, que se encontrava,
desde muito, mudo. Claro, tudo isso me horroriza. O que mais me espanta são os
comentários de alguns conterrâneos, que acham que o espetáculo é bem-vindo.
Feito futuristas démodés, acham, por
exemplo, que se deveria construir no lugar um grande prédio de salas
comerciais. O novo feito a partir da destruição do antigo. Construam e fiquem
sem história. Construam e fiquem sem memória. Construam e morem numa cidade
como outra qualquer, feita de caixotes de concreto e vidro. Isto não é amar a
cidade em que nasceram. Isto é amar um modelo de “progresso” ultrapassado, arcaico
mesmo, vazio e ignorante. O que trará algum progresso certamente não é um
prédio cheio de salas, que poderia ser construído em qualquer outro lote.
Destruam e
digam a seus filhos e netos que a cidade em que nasceram já não existe mais.
Destruam e não mostrem a eles o lugar do primeiro beijo, a esquina em que ouviram
palavras de amor, as casas onde viveram, a escola que lhes edificou. Quando
alguém disser: — nada do seu passado existe mais? Não se comova, pois você permitiu
a destruição de sua própria história. Não se deixe destruir e digamos sem
esconder o rosto: esta é a cidade em que nasci. Aquela é a Pedra Itaúna. Aquele
é o Coreto. Esta é a praça do relógio. Ali está o Cine Brasil! Aqui se preserva
a história de Minas Gerais e do Brasil! E essa história é também a história de
minha vida!
Marcos Teixeira
terça-feira, 29 de maio de 2012
In-Verso
Marcos Teixeira
O livro In-Verso (2012), de Thalita de Oliveira
Freire, apresenta um rico e interessante diálogo com o gênero conhecido como literatura
de cordel. O tom de sua poesia, marcado por um regionalismo e uma dimensão
coloquial, já revela o diálogo que também se confirma na utilização da palavra cordel, utilizada em dois poemas. Essa
poesia que conta estórias também nos conta sobre a própria poetiza nascida em
Curvelo e vinculada desde cedo a Cordisburgo.
A dimensão de
sua poesia e a presença da pequena e famosa cidade deixa entrever o seu gosto
pela prosa de João Guimarães Rosa. O último poema do livro, “Chico Mineiro e
Riobaldo”, traz vivo o personagem rosiano e a sua especulação sobre a vida e a possibilidade
de ter ou não feito o pacto com o diabo. A presença do mito cristão, aliás, nos
remete a um tema recorrentemente utilizado pela literatura de cordel e por isso
aparece sem destoar dos outros poemas.
Thalita de
Oliveira Freire parece trilhar, por outro lado, um caminho feito por João
Cabral de Melo Neto, em que os elementos regionalistas, por um lado, se
encontram bem adequados a uma poesia de traço clássico, metrificada e feita com
agudeza. Refiro-me ao poema-auto “Morte e vida severina”. É preciso, assim, e
se for o caso, que Thalita se debruce sobre os inóspitos tratados de
metrificação para trazer de lá a sua mesma poesia, mas em molde diverso e
aparentemente simples.
In-Verso possui também uma edição artesanal,
com capa feita em papelão e pintada à mão. Por isso cada exemplar é único, bem
ao gosto do cordel. Não tenho mais o que dizer por hora e por isso termino como
um de seus poemas: “Agora vou logo embora, / porque alguém pra aumentar já que
aparece”.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Mais uma canção do grande Manoel Boca
Mais uma canção do amigo Manoel Boca. Desta vez com dois poemas do meu livro: "O homem do mar" (dedicado ao escritor Moacir C. Lopes) e "Poesia confessional".
Cliquem aí para ouvi-la.
Cliquem aí para ouvi-la.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Cantiga do moribundo na voz de Manoel Boca
Aí está a música que o compositor e amigo Manoel Boca fez com o meu poema "Cantiga do moribundo", que, por sua vez, pode ser encontrado no meu Os deuses comem pão e outros poemas (2010). Se não conseguirem ouvir a música aqui pelo blog, cliquem aqui.
O Manoel Boca é cantor e compositor lá de Caratinga-MG e tem tocado junto com outra amiga, a Analigia Reis. Também tem trabalhado junto com a cantora lírica Vânia Melo e certamente tem feito muito mais coisas que eu preciso ainda descobrir. Para ouvir outras músicas suas, entrem no seguinte site: http://soundcloud.com/manoel-boca
Publico aqui o poema na versão do livro. Obrigado Manoel!
Liguem as caixas de som aí e boa apreciação a todos.
Cantiga do moribundo
Marcos Teixeira
Vejo um rato no meu quarto
meu olhar repara tudo.
Ele corre pelos cantos
pelos tacos, rodapés.
Tem um rato no meu quarto
que parece não me ver...
me levanto então da cama
deixo a porta entreaberta.
No meu quarto tem um rato,
muitos livros e papeis
manuscritos e jornais
me vigiam das estantes.
Já deitado vejo o rato
que me busca em seu olhar,
nele encontro uma tristeza
que vem dele e vem de mim.
Quando enfim a luz apago
deixo o rato em paz no escuro.
— Boa noite meu pequeno.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Caratinga de braços abertos
Caratinga completou 163 anos com muita festa e uma programação cultural muito interessante. Minha esposa e eu estivemos presentes. Convidamos um grande amigo meu chamado Ednaldo Moreira, que atualmente vive em Campinas, onde faz doutorado em Teoria e História Literária. Ednaldo é natural de Rio Casca. Fomos colegas na graduação, quando moramos em Mariana, e depois estudamos em Belo Horizonte. Apesar de ter nascido tão perto de Caratinga, não conhecia ainda a cidade das palmeiras e da Pedra Itaúna. Bastou o convite, um pouco de propaganda e ele compareceu.
Logo no primeiro dia, estivemos no lançamento de livro do Camilo, apesar de chegarmos no final, por causa do atraso na viagem. Foi o momento de conhecer uma das coisas mais bacanas da cidade, que é a Casa Ziraldo de Cultura, e conferir a exposição Poesia e cartum: duas visões de Drummond. Conversamos com o amigo Camilo, que fez as dedicatórias e deu boas-vindas ao Ednaldo. Depois disso tivemos a oportunidade de tomar uma cerveja gelada ouvindo os músicos Manoel Boca e Analigia Reis. Meu amigo conheceu todo mundo. A jornalista Fabiane Arêdes listou todos os lugares que ele precisava conhecer na cidade e definiu muito bem o caratinguense como um povo hospitaleiro e talentoso. Devemos ao amigo Hermam Mendes a boa conversa sobre música popular e a situação do compositor na cidade e no Brasil.
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| Pedra Itaúna - Caratinga-MG |
No dia seguinte, o primeiro dia de festa, o Ednaldo conheceu o pão de queijo da dona Odila, minha mãe. Era feriado. Estivemos em alguns pontos turísticos da cidade. Meu amigo viu o monumento do menino maluquinho, a construção do santuário e o tapete decorativo que fazem nessa época do ano. Tudo isso muito rápido, pois era preciso subir no alto da Pedra Itaúna, o cartão postal mais importante da cidade. Parapentes deslizavam no céu. O acesso, que merece ser alargado, não está tão mal, mas precisa de cuidados, pois há buracos e mato. No alto da pedra avistamos a cidade pequenina lá embaixo. É de fato muito bonito. Considerei que aquelas antenas poderiam ser afastadas e no lugar poderíamos ter um restaurante ou algo do tipo. Seria muito bom fazer uma refeição vendo aquela vista maravilhosa. De volta, fomos para a praça ver as apresentações musicais no coreto do Oscar Niemeyer, comer e beber. Confesso que não entendi aquelas gravuras religiosas no palco. De qualquer forma, embaixo delas havia boa música. Considerei que o som poderia estar mais baixo, mesmo quando se toca rock. Mas esses detalhes não diminuíram a importância e a beleza da festa. A cidade, aliás, estava lotada. Foi o dia em que tocaram Renata Cordeiro e Ronise Ramos, dentre outros.
No dia de aniversário da cidade, estivemos no sítio de meu pai pela manhã, passando por Piedade de Caratinga. A estrada estava boa. No percurso, meu amigo conheceu a região da avenida Dário Grossi, avistou os prédios da Unec, dentre outras coisas. À tarde estivemos mais uma vez na praça Cesário Alvim. Não queríamos perder o show do Thiago Delegado, cujo trabalho acompanho desde a época em que tocava com o músico Ausier, no Pedacinhos do Céu, em Belo Horizonte. O Thiago Delegado e os demais músicos nos presentearam com um show muito bonito e emocionante. No meio da plateia avistei muita gente conhecida: Nelson Sena, Fernanda Cordeiro, Camilo, Paulinho Paul, Raul Miranda, Edra, dentre outros. Nesta noite pude apresentar ao Ednaldo o meu grande amigo Fernando Campos, que esteve conosco durante o show.
No dia 25 lá estávamos de novo na praça, conferindo as apresentações. Ficou faltando apresentar ao meu amigo muitas pessoas interessantes da cidade, como o Carlos Araújo e o escritor Maxs Portes. Mas haverá tempo para ele conhecer todo mundo e também a arte produzida pelo caratinguense. No dia 26 nos despedimos do Ednaldo, que seguiu para Rio Casca, sua terra natal. A rodoviária de Caratinga é boa, mas precisa de atenção e melhorias. Tenho certeza que agora Caratinga segue junto com meu amigo e, com ele, rodará todo o Brasil. Adriana e eu ficamos um pouco mais para matar a saudade da terra, da família e dos amigos.
fonte:
TEIXEIRA, Marcos. Caratinga de braços abertos. In: Diário de Caratinga. n. 4734. 30 jun. 2011, p. 07.
fonte:
TEIXEIRA, Marcos. Caratinga de braços abertos. In: Diário de Caratinga. n. 4734. 30 jun. 2011, p. 07.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Carta do Moacyr Scliar
Carta-bilhete do escritor Moacyr Scliar remetida em 2006, por ocasião do lançamento da 1ª edição do meu livro Os deuses comem pão.
sábado, 28 de maio de 2011
Fernando Campos, poeta de sete faces
Marcos Teixeira
Foi em Caratinga. Não sei dizer exatamente quando tudo se deu. Sei que foi antes de aparecerem as máquinas digitais e os aparelhos celulares, que um dia, quando andava interessado por fotografias, acabei conhecendo o poeta Fernando Campos, em visita que fiz à sua casa. Quem nos apresentou foi o artista plástico Geraldo Lomeu, que conheci por meio de meu irmão mais velho. Nessa época, o pintor andava com uma máquina profissional e registrava detalhes da cidade das palmeiras. Lembro-me bem de uma pintura inacabada do Lomeu que representava o ventre de uma mulher abrigando uma espécie de jovem de pé grande. Tempos depois ele alterou o desenho e terminou a pintura.
Fomos recebidos pelo Fernando Campos que, em Caratinga, consegue a façanha de ser artista plástico, fotógrafo, poeta, professor e, nas conversas descontraídas, também é um excelente crítico de arte. Posso dizer então que o conheci primeiro como fotógrafo. Ele nos deixou e foi buscar uma caixa de onde surgiram inúmeras fotografias. Foi nos explicando a técnica, os procedimentos utilizados, a perspectiva adotada, a luz empregada, essas coisas. Tempos depois veria uma de suas fotografias, tirada na Gruta de Maquiné, ilustrando a capa de uma das poucas edições da extinta revista Fissura Crônica.
Depois do fotógrafo, conheci o Fernando Campos artista plástico. Em sua casa podemos encontrar sua produção. Um destaque para o busto de Vera, sua esposa, que talvez eu tenha conhecido primeiro pela escultura. Hoje sei que é uma pessoa maravilhosa. Há lá obras em formato de pé, de mão, dentre outras, que são melhor entendidas com a explicação, sempre erudita, de quem as fez. Nas paredes encontramos também obras de outros artistas. Telas de Paulo Vieira e Sinval. Uma pintura de Paulo Vieira tinha um osso transpassado, já em outra encontramos a Pedra Itaúna.
Enfim o conheci como escritor. Talvez o Fissura Crônica tenha tido uma importância neste sentido. Foi por essa época que conheci o Carlos Araújo e a Mírian Freitas, que me foi apresentada pelo Fernando. Nas diversas visitas que fiz ao poeta, pude ler e conversar sobre sua poesia. Também me aventurei a lhe mostrar meus primeiros poemas e recebi verdadeiras palestras que iam da métrica às imagens plásticas. Ao mesmo tempo me informava acerca dos demais artistas caratinguenses. Também foi por esta época que fundamos um jornalzinho chamado Literatura Alternativa, que possui colaboração desse artista de sete faces.
Residindo fora da cidade desde 1999, acompanho de longe o trabalho dos amigos. Quando não posso visitar a terra natal, é por meio da internet e de publicações como a Revista Itaúna que recebo notícias de todos. Mas já que revelei que o Fernando é um grande poeta, um dos melhores que conheço, vejamos um de seus textos publicado nesta revista, em seu número doze, sobre o qual arriscarei um comentário:
Túrgido litúrgico
Não espero senão o momento
em que passe este asco
(em que pese o nojo)
e esta espécie de misoginia.
Um corpo descendo à terra
sob as pás do silêncio,
mais vale pra que eu padeça
as dores todas do mundo.
Vi como eram belos
os olhos tristes da menina,
vi quando suas mãos mergulharam na terra,
em busca de uma paz ressuscitada.
E antes de descer as escadas,
o pai ainda disse à filha,
à guisa de resposta alguma:
‘A alma, minha pequena,
é você pensando nela’.
Salvo engano, é claro o enigma.
Podemos dizer que o poema trata de uma cena de morte. O eu poético relata suas impressões diante do enterro, possivelmente, de um ente querido. O poema permite duas leituras. Numa primeira, a menina permanece viva e assistiu ao enterro de alguém que lhe é importante. Talvez o da própria mãe. Não temos a pergunta da criança, mas é fácil deduzir que se trata do conceito de alma. Numa segunda leitura, temos o enterro da própria menina e, em seguida, uma rememoração do eu poético acerca das coisas do passado: a lembrança dos olhos tristes, a recordação da pergunta sobre a alma feita ao pai.
Nas duas leituras, o asco comum a uma cena de velório se confunde com uma espécie de misoginia, ou seja, a uma aversão à mulher ou ao contato sexual com a mesma. Neste ponto a primeira leitura se fortalece, pois se poderia pensar na figura de uma esposa. O eu poético, diante da própria mulher, estaria desprovido de desejo e acometido pelo asco. Diante da cena propriamente dita do enterro, vista pela metáfora das pás de silêncio, o eu poético sente o tormento e deseja, também ele, o silêncio ou, melhor dizendo, a tranquilidade que talvez o tempo trará. O eu poético então se dirige para a filha que está triste, que avançou sobre a cova num gesto desesperado de restituir o ente querido, e que, pouco depois, pergunta sobre a alma. Uma pergunta de fato metafísica, como: “— O que é a alma?”. O texto, neste momento, se descola do sujeito para mostrar, e revelar ao leitor, que entre a menina e o sujeito atormentado existe uma relação de pai e filha. A cena não impede que ele tente responder a esta e o faça de maneira desprovida de misticismo.
Numa segunda e mais audaciosa leitura, podemos pensar que quem morreu é a menina e, após o seu enterro, temos uma rememoração do passado, pela perspectiva do sujeito que foi ao enterro, que neste caso não é o pai. O texto então se torna um embate entre juventude e morte e o falecimento prematuro nos lembra o famoso verso do poema “Pneumotórax” de Manuel Bandeira: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.
É preciso observar que os elementos do poema pertencem a um tempo presente: “...o momento / em que passe este asco”; “um corpo descendo à terra”. A partir deste momento, a cena de um enterro, é que o passado ressurge ao eu poético, que solicita, também ele, pelas pás de silêncio, pelo esquecimento futuro. Nesta segunda leitura, a ideia de misoginia perde força em relação à primeira, pois neste caso se trata de uma menina morta. Ao contrário, é certo nojo sufocante que caracteriza o sentimento. Em seguida se dá a cena do enterro. O corpo desce à terra sob pás de silêncio. Para quem está morto a terra que cai não faz barulho. A menina morta recebe o silêncio, já o eu poético, espectador da cena, padece as dores todas do mundo. Silêncio para quem vai, tormento para quem fica. Ainda assim é possível reconhecer ou relembrar a beleza de seus olhos tristes. Os opostos se aproximam no poema: vida versus morte, juventude versus decadência, beleza dos olhos tristes de menina versus o asco despertado pela cena.
Por fim, um momento anterior é rememorado. O cotidiano da menina que desperta para a vida em meio a reflexões metafísicas, quando, por exemplo, nos perguntamos se a alma existe. Antes de descer as escadas, o que sugere diversas coisas, dentre elas o declínio da vida, a proximidade do fim, etc, é que ouve de seu pai que a alma é “você pensando nela”. A alma, sempre pregada por aqueles que nos rodeiam como algo místico e divino, existe por uma racionalidade: “é você pensando nela”. O verso assim dá margem a um questionamento cético. Nesse sentido, é claro o enigma. É racional, pois demanda reflexão, ainda que seja obscuro.
Essa lembrança, à beira da cova, revela mais um vazio do que qualquer crença na eternidade mesmo permitindo a existência de um enigma. O título do poema que apresenta uma rima interna, toante, traz em si o universo místico, no caso, o religioso. Mas esse universo litúrgico é túrgido, o que permite dizer perfeito na forma, por um lado, mas disforme de outro, pois túrgido também significa dilatado, inflado, intumescido. Assim, ainda que lembre Bandeira, é em relação a Drummond que Fernando Campos realiza um forte diálogo neste poema. O último verso remete ao livro Claro enigma, publicado em 1951, trazendo por meio da intertextualidade a relação entre o que é claro, mas ao mesmo tempo enigmático.
Além dos nossos poetas maiores, o Fernando também me fez lembrar da Henriqueta Lisboa, do livro Flor da Morte publicado em 1949, e em alguma medida dos poetas simbolistas. Mas isso é apenas o que o poema “Túrgido litúrgico” me despertou. Certa vez ele me disse que possui um livro, engavetado, aguardando uma publicação, que pretende distribuir a obra entre os amigos, fazendo uma tiragem pequena. Vamos aguardar o livro deste grande poeta.
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