O ser e sua
inconstância: a poética de Dírlen Loyolla
“Hoje eu sou mais um que se despedaça”
A poesia de Constância nos conquista de variado modo e também nos revela, pouco
a pouco, que há muitos meios de se adentrar no universo poético de Dírlen Loyolla. Dentre as diversas tensões existentes na obra, até o que parece não
tencionado pode ocultar a seu modo o seu contrário. A começar pelo título do
livro que nos remete ao que é permanente, calmo e frequente, mas que poderá
revelar justamente o contrário: um ser em que a inconstância é o que mais se
repete e se perpetua. Tal como a imagem do rio de Heráclito utilizada como
epígrafe que, sendo o mesmo rio, é outro, há uma descontinuidade no ser, que se
fragmenta continuamente. Como é afirmado em um dos versos mais emblemáticos da
obra, temos “um ser provisório girando no sempre do mundo”. A ideia de
inacabado, no entanto, pode ser vista dentro e fora do eu que se faz presente
na obra. Por um lado, é um ser que se despedaça e se sabe inconstante e
provisório. Por outro, há uma dimensão fortemente lírica, presente em vários poemas, que parece fragmentar o amor ou buscá-lo na figura de uma amada,
Constância, que também se despedaça em vários e diferentes alumbramentos (Constância também é um nome de mulher!).
Parece feita de sal e vidro, como no poema, sangrando a onda que se aproxima
para depois vê-la retornar incutida de dor e solidão. O diálogo com a tradição
lírica é presente em vários momentos: “E se Constância for o nome do calvário?”.
Em relação ao ser, ora a ideia nos aparece na
imagem do barco sobre as águas, ora a voz que se anuncia poeticamente parece
estar como um corpo se equilibrando sobre as ondas de um rio ou do mar. O
poeta, ou este que se anuncia como tal, é arrastado pelas águas assim como o
ser que é levado pela vida e segue rumo ao incerto ou paira feito um náufrago
refletindo sobre o amor e sobre a vida. Os elementos remontam a longa tradição
literária e ao leitor perspicaz não faltarão indícios para investigar esse
diálogo em contraposição ao universo individual que se percebe pela obra. Como
é dito em um poema, nas águas, os pés não tocam o fundo do rio. Em outro, o
eu-lírico se anuncia como um misto de raiz e folha ao vento, entre aquilo que
permanece e o que se esvai constantemente. Os elementos da natureza, aliás,
estão presentes na poesia de Dírlen Loyolla, que soube trabalhar de forma
magistral a força poética detentora de cada um deles.
Em seu fazer literário, destaca-se, talvez
mais do que tudo o que já se comentou aqui, a dimensão musical presente em seus
versos. Embora trabalhe também com versos curtos, o poeta tem nítida
preferência pelo verso de metro longo, que, de forma surpreendente, soube
trabalhar com sonoridade própria e exemplar. Tal qual a presença de elementos
como a água e o vento, há um movimento ritmado presente em sua poesia que se
revela como construção sonora. Daí o verso longo, que serpenteia ritmado na
leitura. Vejamos, por exemplo, dois versos retirados de “Reticência”: “e eu não
vou me deixar acertar como alvo sendo ponteiro em certo sentido não sido no /
fundo perdido de um quase-lugar, de um quase-tempo”. Há, como se vê, um ritmo
ternário presente na quase totalidade da constituição desses versos, que ganha
relevo pelo jogo de rimas internas. Assim, a leitura segue ritmada se alterando
um pouco no meio e ao final do segundo verso, mas de maneira melódica,
harmoniosa.
Há, nesse sentido, uma nítida preocupação
com o ritmo e caberá ao leitor ajustar o seu ouvido ao verso magistral desta
obra. Além da marcação, ora mais sincopada, ora mais melodiosa, o leitor se
deparará com sonoridades que nos remetem ao universo da música de um modo
especial. É o caso do poema “Gis”, que na alternância dos termos gis, giz, quis
e bis, somados à assonância em i presente
nos versos, funciona como um compasso musical, que estrutura sonoramente todo o
poema e divide os versos de acordo com o som. Em outros momentos, o jogo de
assonâncias e aliterações cria uma moldura no verso, como se pode observa em
“Não há lugar para quem ama quem ama não ter lugar...”. Observe-se que o verso
se inicia com a presença fônica de u
na primeira e na terceira palavra, passa-se em seguida a uma sonoridade marcada
em a e em e, e retoma ao final o som do u,
que abrindo e fechando o verso, emoldura-o. Em outro momento, no poema “Danielle
Fardin”, a sonoridade que encontramos nos versos parece extraída do nome
próprio da pessoa homenageada. Leia-se por exemplo o verso “Sim, Danielle
Fardin” ou os versos “Ah, Danielle Fardin, Danielle Fardin, / por que deve ser
assim o assim de nosso encanto?”, em que, no segundo verso, o som do i aparece ilhado, mas em diálogo com o
referido nome pela rima constituída.
Esse poema, assim como vários outros que
recebem dedicatórias do autor, revela também como poesia e vida se unem na
poética de Loyolla. Tudo o que soa experiência, no entanto, é claro
material para a boa poesia que lapidou, ou (por que não?) musicou: “Hoje me
foge um samba pelos dedos sobre a mesa”. Certa vez, aliás, o poeta me confessou
que descobriu a poesia primeiro pela música popular brasileira, que seu pai lhe
apresentara ainda na infância, e que aperfeiçoaria depois pelas leituras,
inclusive por sua reconhecida trajetória acadêmica.
Para esse compositor de poesias, a
linguagem é livre e inventiva. Por isso, também será necessário que o leitor,
muitas vezes, guarde os óculos das leituras anteriores. Se não os tiver, é até
melhor, pois substantivos podem virar verbos, conjugar e ganhar pronomes,
construindo versos instigantes como “Taça-me na língua líquido derrama água-me
os pés sem chão”. Em outro momento, por exemplo, a palavra hamar pode trazer uma pluralidade de
significação, que não seria possível na outra modalidade da língua. Por isso, a
aparição de uma única mesóclise no livro não causará estranhamento, pois as
inovações em matéria de linguagem realizadas pelo poeta beberam na tradição e o
uso ritmado que faz do verso o permite com naturalidade. O arcaico se torna
contemporâneo.
Apesar de só agora publicada, Constância é obra que passou por um
considerável período de maturação, acompanhando o seu autor por vários lugares
do país. Havia lido ou ouvido de seu criador um ou outro poema e aguardava
secretamente a publicação de seu livro. Ao ler o livro agora percebi que
algumas passagens de certas poesias já me eram conhecidas e de outras tinha
comigo algumas imagens consistentes guardadas na memória. Por isso, poemas como
“Poeta de aluvião”, “A boca absoluta” e “Primeira caça ao ser ausente” são para
mim exemplos já consagrados de um poeta que só agora se poderá de fato
conhecer. Os poemas reunidos em Constância
são detentores desta força poética, que fazem de Dírlen Loyolla um grande
escritor.
Marcos Vinícius
Teixeira
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul
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