domingo, 17 de fevereiro de 2019

A ressurreição de Antônio Conselheiro e a de seus 12 apóstolos


Carta escrita ao amigo Moacir C. Lopes, que teria completado 90 anos naquele 2017. Acabei não publicando o texto, que aqui vai como forma de recomendar a leitura do romance A ressurreição de Antônio Conselheiro e a de seus 12 apóstolos.


“Canudos era imenso cemitério”.
Moacir C. Lopes

Prezado amigo Moacir,

Só agora, passados 10 anos da publicação e 7 que nos deixou, venho lhe contar sobre minhas primeiras impressões que A ressurreição de Antônio Conselheiro e a de seus 12 apóstolos me trouxe em primeira leitura. Aproveitei uma viagem a Minas e uma pausa forçada no trabalho para enfim percorrer os caminhos e descaminhos dos inúmeros personagens da obra, sertão a dentro. Nisto, aliás, e pelo seu caráter histórico, me lembrou o O almirante negro, Revolta da Chibata, a vingança, outra obra da qual gosto muito.
A quantidade de narradores e a estrutura da obra me trouxe também a lembrança de Crônica da casa assassinada, do Lúcio Cardoso. Em companhia de Fogueteiro, Jardelina, Pajeú e tantos outros, fui alinhavando a história do santo Antônio Conselheiro e do terríveis combates travados no sertão. Difícil não se arrebatar com tanto horror, quando diante de nossos olhos passam pessoas decapitadas, corpos empalados à beira dos caminhos, rostos mumificados com o semblante da morte, ventres rasgados e histórias de fetos arrancados das barrigas maternas. Não há como não refletir sobre a força desmedida utilizada pelo governo e sobre o universo social estabelecido em Canudos. Tal reflexão, no entanto, advém pelos personagens vitimados e se alia ao ponto de vista do povo a vencer e a ser vencido.
O tema da ressurreição, já presente no título do livro, me fez pensar que o enredo poderia seguir caminho semelhante a Onde repousam os náufragos. Enquanto lia, fui imaginando a possibilidade de Conselheiro e seus doze apóstolos ressuscitarem e tornarem a combater, vencendo a batalha impossível. Confesso que fiquei surpreendido quando ao final a obra avança momentaneamente cem anos e depois realiza digressão situando os personagens em lugares outros como nas favelas do Rio de Janeiro. O caminho trilhado na obra é compreensível, pois me pareceu que se lhe fez necessária uma certa adesão ao fato histórico.
Mas se o mítico, mesmo presente, não alça voo na direção que desejei, a vereda trilhada é muito instigante, pois, de forma alegórica, desenha a condição social do povo brasileiro, sempre subjugado por uma elite injusta e poderosa. A dúvida da ressurreição, com o estabelecimento de sósias de personagens, de combatentes escondidos em buracos e sobre as árvores assombrando a missão dos soldados, é de fato um ponto alto da obra.
A história da Canudos vai se completando à medida que o leitor avança pelas várias versões dos narradores acerca dos combates realizados. Confesso que algumas vezes considerei a repetição de algumas cenas, nas várias narrativas, algo que tornou o enredo lento ou, como já dado de antemão, revisitado. Indaguei-me um pouco também acerca do conhecimento que todos os personagens tinham das batalhas futuras. Mas são detalhes que não diminuíram, em minha leitura, a importância da obra. Por sinal, quando as narrativas esquecem um pouco as expedições militares e o cotidiano dos personagens surge de forma forte a obra apresenta o seu melhor sumo.
Nesse sentido, merece atenção especial o capítulo “Evangelho segundo João Abade”, também intitulado “A espada do guerreiro”. Pareceu-me uma das melhores partes da obra, quando o histórico enfraquece permitindo o fortalecimento do romanesco. Curiosamente, é quando um personagem resiste um pouco a seguir os andarilhos rumo a Canudos. A estória de João Abade se articula bem com Jardelina, outro universo ficcional de relevo na obra, e, claro, com as mulheres relacionadas a ele.
Isso não quer dizer que as outras partes tenham ficado aquém. Do contrário, revelam que o autor é um engenhoso criador de personagens e que a quantidade deles não prejudica a constituição do todo. Como em O almirante negro, funcionam como condição necessária para que não roubem a atenção da dimensão histórica. Lá, a Revolta da chibata. Aqui, a guerra de Canudos. Os episódios e os lugares em que ocorrem passam a funcionar como verdadeiros protagonistas da obra, ou, se quisermos, o conjunto dos inúmeros personagens.
Se Fogueteiro reencarnou em terras do sul e outros personagens apareceram nas favelas do Rio de Janeiro, é sinal de que o santo Antônio Conselheiro ainda pode ressurgir para liderar o seu povo e tomar parte na luta diária dos brasileiros contra as injustiças dos poderosos. Canudos não se rendeu e a sua memória não morrerá!

Jardim-MS, 09.09.2017.


Marcos V. Teixeira

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Sabará e a literatura: cinco ideias para valorizar a cidade


Marcos Vinícius Teixeira

Museu do Ouro / IBRAM - Sabará-MG


De 7 a 9 de maio de 2018 ocorreu em Sabará, Minas Gerais, o 3º Ciclo de estudos sobre o escritor Aníbal Machado – 16ª Semana Nacional de Museus, organizado pelo Museu do Ouro e com apoio do Ibram e do MinC. Fui convidado pela coordenadora do evento, Isabella Carvalho de Menezes, para palestrar e participar dos três dias do evento, que foi um momento importante não só para refletir sobre a obra do escritor sabarense como para repensar a relação que o seu universo literário e artístico possui com a cidade de Sabará onde nasceu. Toda a equipe do Museu do Ouro foi importante para a realização do evento, dentre os quais é preciso registrar a participação do diretor Ricardo Alfredo de Carvalho Rosa e da museóloga Andréia Figueredo.
Existe em Sabará um Clube de Leitura chamado Iniciados de Aníbal, que vem, desde 2016, realizando encontros para conversar sobre obras literárias, em especial as do escritor Aníbal Machado. Durante o terceiro ciclo, participei de um de seus encontros, quando conversamos sobre o conto “A morte da porta-estandarte” e sobre a obra como um todo do escritor sabarense. Posso afirmar que há um grupo de pessoas na cidade de Aníbal interessado em sua obra e disposto a manter vivos o seu universo literário e a sua memória. Dentre os iniciados, estão pessoas de grande erudição como a Profa. Monica Maria Granja Silva e o Prof. José Arcanjo Do Couto Bouzas.
Durante uma palestra, conversamos sobre como a cidade histórica de Sabará e o escritor Aníbal Machado estão ligados. Apesar de o casarão onde o escritor nasceu ter deixado de existir, este sobrevive em sua obra, em especial no romance João Ternura e nas diversas anotações que fez. Não é só o casarão, mas toda a chácara do Fogo Apagou. O Rio das Velhas percorre boa parte de sua obra, aparecendo, por exemplo, no belíssimo conto “Viagem aos seios de Duília”. Sabará aparece como a cidade colonial, pontilhada de igrejas. O som do sino percorre a região levado pelo vento.


Palestra sobre a importância de Aníbal Machado na Literatura Brasileira
07/05/2018 - Sabará-MG

Sabará são duas: a cidade real, interessantíssima, que o turista descobre caminhando por suas ladeiras e a cidade imaginária, ligada ao inconsciente coletivo, presente simbolicamente na obra de escritores como Aníbal Machado, Paulo Machado e Lúcia Machado de Almeida. Trata-se de uma importante família de escritores nascida em Sabará que contribuiu para a constituição desta cidade letrada. É preciso, porém, ajustar as duas lentes e aproximar mais a cidade literária da cidade real. Sabará, além da cidade histórica, é também o lugar onde o personagem João Ternura se aventura e começa a descobrir o mundo. O Rio das Velhas, além de maior afluente do São Francisco, é também o rio do personagem José Maria e do próprio Aníbal Machado. Vários projetos podem ser realizados, nesse sentido, em Sabará.
Em um momento especial do encontro, realizamos uma pequena expedição por pontos importantes da cidade, com paradas, explicações e rememorações sobre os lugares significativos para a obra de Aníbal Machado, de sua família e para a memória da comunidade. Estivemos no local onde passava os trilhos e onde existiu a antiga estação de trem da EFCB. Lá ainda existe a parte do prédio onde funcionou a oficina da estação, que bem poderia abrigar um memorial para a família do escritor. Há também todo um espaço disponível que poderia abrigar um monumento do escritor Aníbal Machado com uma vista especial da cidade de Sabará. Tratam-se aqui de impressões e sugestões minhas. Os sabarenses saberão escolher os melhores lugares, se as ideias se concretizarem um dia. Por todo o percurso conversamos com pessoas da comunidade e ouvimos relatos importantes sobre a cidade e sobre seus habitantes que valem um documentário.
Com o auxílio de dona Edna Lúcia Chagas e de dona Neuza Chagas, estivemos no local onde existiu o casarão do Coronel Virgílio Machado. O relato das duas moradoras é muito importante e merece também compor um documentário sobre a região. Elas viveram na casa onde Aníbal Machado passou a infância e possuem lembranças saborosas da casa e da região. Com elas descobrimos que a Chácara Fogo Apagou possuía um tamanho maior do que imagináramos. Segundo elas, a chácara começava no encontro das ruas Mário Machado com a Rua de Fundo, onde havia originalmente uma porteira. Seguindo pela rua de baixo, vamos encontrar o local onde existiu o casarão do Coronel Virgílio na região formada pelas ruas Mário Machado, José Barnabé das Chagas e José Ribeiro do Carmo. Lá existe hoje outra construção, onde funciona uma empresa, que substituiu o antigo casarão. Avistando esta construção da parte de baixo, na esquina, vemos pilares de concreto que sustentam um telhado de zinco. Ali, na linha desses pilares, segundo as moradoras, começava o casarão, mas sua posição era virada para a cidade e de uma das janelas se avistava facilmente a igreja São Francisco de Assis e de lá lhes chegavam os sons dos sinos tal qual ocorrera com o escritor Aníbal Machado há mais de um século. Seguindo à esquerda, pela rua José Ribeiro do Carmo, vamos encontrar o local onde terminava, segundo elas, a chácara, localizado no encontro desta rua com a Paracatu ou a pequena praça triangular que há ali. Nosso percurso terminou na Capela de Sant’Ana, bonita construção com paredes inacabadas que merece estar no trajeto de todos os turistas.

Chácara do fogo apagou – Pintura de Francisco Rocha, datada 1927. Pertenceu a Maria Luíza Machado Gontijo, filha do escritor. Acervo de Escritores Mineiros – UFMG.

Houve ainda oportunidade para conversar com a equipe do Museu do Ouro acerca de diversas questões envolvendo a relação entre a comunidade e o museu, a cidade como um museu vivo, marcado por monumentos, mas também por ausências, que são importantes para a identidade do sabarense. As várias possibilidades e realizações materiais e não materiais, dentre inúmeras outras questões relacionadas à significação da região para a comunidade. O ciclo como um todo pareceu servir antes de tudo para instigar em nós e na comunidade as inúmeras possibilidades que a cidade, que é detentora de potencial incalculável, oferece.
Instigado pelas pessoas com quem convivi e conversei durante os dias do evento, resolvi compartilhar algumas ideias que podem ser transformadas em projetos para a cidade.


Projeto 01: Itinerário do inacabado
A cidade de Sabará é rica em construções inacabadas e ruínas. A igreja Nossa Senhora do Rosário, as ruínas do Solar Melo Viana, que atendendo a uma pesquisa do Prof. José Bouzas poderá ter o nome alterado, a ponte da estrada de ferro, a Capela de Sant’ana, que possui paredes inacabadas em seu interior, dentre vários outros monumentos que podem ser acrescentados. Vale observar que o inacabado e as ruínas são um tema caro à obra do escritor Aníbal Machado. Tratei do assunto na minha tese Aníbal Machado: um escritor em preparativos. O título poderia ainda ser outro: Rota do inacabado, Roteiro do inacabado... O tema, que é importante em áreas como Literatura, Arquitetura, Museologia, Sociologia, Artes Plásticas, poderia instigar também a organização de um evento com palestras.


Projeto 02: Semana Aníbal Machado
Tal como se deu no 3º Ciclo de estudos sobre o escritor Aníbal Machado, a cidade de Sabará pode ter a sua Semana Aníbal Machado, a ocorrer anualmente. Algo semelhante ocorre na cidade de Cordisburgo com a Semana Rosiana. O evento em Sabará poderia contemplar a família de escritores. Com isso, além do autor de João Ternura, o evento seria uma oportunidade para conversar sobre a obra de Lúcia Machado de Almeida, de Paulo Machado e de outros autores. Observe-se nesse sentido que a literatura infantojuvenil teria lugar importante no evento, que ainda poderia contar com obras de autores nascidos em outras cidades, mas pertencentes à família, como Maria Clara Machado e Ângelo Machado. O Itinerário do Inacabado poderia ocorrer como parte da Semana Aníbal Machado.


Projeto 03: Memorial Coronel Virgílio Machado
A cidade de Sabará poderia ser presenteada com um espaço, uma casa, para se constituir o Memorial Coronel Virgílio Machado, abrigando informações sobre toda a família de escritores. Quadros poderiam ser confeccionados com as fotos existentes. As primeiras edições das obras podem ser adquiridas e podem ser alocadas em expositores. O espaço pode contar com salas para cursos e outros eventos. Talvez algum mobiliário da família possa ser adquirido. O espaço pode e deve ser escolhido pelos sabarenses. Faço uma sugestão: utilizar parte da antiga oficina da primeira estação de trem. Refiro-me à parte direita do prédio, onde hoje funciona a Secretaria Municipal de Saúde. Não entrei no prédio e não sei se atualmente o espaço é utilizado. A localização deste prédio é interessante, pois de lá se tem uma vista da cidade semelhante à que o menino Aníbal Machado tinha da casa do pai.


Projeto 04: Monumento Aníbal Machado
Uma estátua de Aníbal Machado poderia ser colocada em algum lugar da cidade de Sabará. Sempre me lembro da caricatura do Aníbal segurando firme a sua obra João Ternura, que tardou a publicar e  só foi editada postumamente. A imagem pode servir de inspiração. Talvez o escritor segurando o livro ou, claro, outra ideia. A estátua do Aníbal Machado poderia ser semelhante a estátuas recentemente instaladas em diversos lugares do país, como a de Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro, a do próprio Drummond conversando com o Pedro Nava em Belo Horizonte, a do Murilo Rubião caminhando também em Belo Horizonte, na Praça da Liberdade, ou, mais recente, a de Manoel de Barros em Campo Grande-MS. Há uma árvore muito bonita próxima ao prédio da atual Secretaria Municipal de Saúde. A árvore evocaria a famosa cena do conto “Viagem aos seios de Duília”. Se este prédio fosse utilizado para abrigar o Memorial Coronel Antônio Virgílio, o Monumento Aníbal Machado poderia ficar perto ou debaixo da árvore frondosa que há ali. O entorno poderia ser alterado e até mesmo uma praça aberta poderia ser construída no local. Seria interessante a estátua ficar próximo ao memorial e poderia ficar virada para a cidade. Ter-se-ia então uma vista correspondente à que Aníbal Machado tinha do casarão de sua infância. No percurso da estátua até o centro histórico passamos pelo Rio das Velhas, que tanto marcou a sua obra. A região poderia ser revitalizada.

Charge de Moura publicada no Correio da Manhã em 22 de outubro de 1955


Projeto 05: Marcos históricos
Placas com fragmentos de textos dos escritores da família Machado poderiam ser espalhadas pela cidade, com o cuidado de não a tornar carregada demais de informações. Nesse sentido valeria a pena realizar um trabalho de diminuição de elementos que há na cidade como as placas comerciais. Áreas de estacionamento merecem estudo e requalificação. Valeria a pena pensar em fechar uma pequena parte da cidade impedindo-se a passagem de qualquer tipo de carro. Claro que tudo precisa ser estudado e avaliado. Por isso, os fragmentos de textos poderiam ficar em lugares discretos e seriam descobertos pelos visitantes em suas caminhadas. Não temos mais o casarão do Cel. Virgílio Machado, mas valeria a pena termos um marco que registrasse que naquele local existiu o casarão e a chácara. Sugiro que os nomes das ruas que cruzam atualmente a antiga Chácara do Fogo Apagou fossem alterados, conservando-se, claro, os nomes que possuem significação para o lugar. Parece-me, por exemplo, que não há em Sabará as ruas Cel. Virgílio Machado e Aníbal Machado. Assim, poderíamos ter ruas com nomes dos escritores desta família nesta região. Isso ajudaria a manter uma identidade para o lugar onde existiu a chácara. Sugestão de nomes: Rua Cel. Virgílio Machado, para a rua mais importante em relação à localização do casarão; Rua Aníbal Machado; Rua Lúcia Machado de Almeida; Rua Paulo Machado, para as outras ruas. O mapa a seguir auxilia na localização da antiga chácara.


Localização do casarão do Coronel Virgílio Machado


10/05/2018






Outras fotos:















terça-feira, 18 de julho de 2017

Poesia indelével





A aparição de Desjejum, pouco tempo após a publicação de Insolvência, primeira obra de Fernando Campos, descobre, no sentido de revelar, um poeta maduro. O sabor de novidade a circunvagar a figura de seu autor, convertido em nome na capa de um livro, cede lugar, à mesa, para a imagem de um anfitrião, que, pelos pratos oferecidos, se apresenta como um criador com trajetória longa e profícua. Seu voo não é curto, nem bissexto é o escritor. O lirismo de Insolvência, já revelador nesse sentido, se construiu a partir do trabalho com a palavra e não requer uma abordagem extrínseca. A obra já revelava um autor experiente, pois, antes de Insolvência, Fernando Campos já havia trabalhado em outros livros e, como degustador experiente, manteve-os engavetados para provação. É o caso de Desjejum, que, guardado há mais de uma década, resistiu ao tempo e é submetido agora ao exigente paladar do leitor.
Diversas imagens se descortinam ao longo da presente obra. Alinhavá-las não é trabalho fácil e, certas vezes, em matéria de poesia, é tarefa secundária quando não dispensável. A leitura pode buscar pelas relações exteriores à obra, o que despertará algum interesse. Não é possível, no entanto, deixar de abordá-la enquanto construção poética em que a linguagem cria um mundo novo. O real, nesse sentido, se existir, funcionará apenas como estímulo ao novo universo textual, que se cria em linguagem. Ao mesmo tempo, sabemos, toda construção literária se dirige em certa medida ao centro de seu criador, com a qual se identifica de variado modo.
Dentre as imagens que encontramos nesta obra, várias dialogam com um universo religioso numa contraposição entre o ser e o mundo. O título da obra abrange esta significação: se a ideia de jejum, para os religiosos, está ligada à ascese, isto é, a uma renúncia aos valores e desejos mundanos, ao próprio corpo, como forma de buscar uma dada dimensão espiritual ou mesmo transcendental, o desjejum aponta para caminho diverso. Para compreendê-lo, os versos do poeta sugerem um procedimento a se adotar: “para que a poesia sobreviva / urge despertar os filtros / e trazê-los desbragados”. Tanto no sentido de dispositivo quanto no de amavio, filtro se identifica com a ideia de libertação, de buscar ver de outro modo ou, no primeiro caso, com olhos livres, como aquele que se depara com a vida pela primeira vez. Para este, o mundo, ainda que pronto, não se encontra explicado. Difícil, no entanto, é se descobrir livre quando uma certa ideia de mundo, inventada antes de nós, já nos fora inculcada.

Nesse sentido, se surpreenderá o leitor que ao final da leitura do pórtico “Desjejum” se pegar pensando numa maçã. Ainda que se defenda alegando se recordar do famoso poema de Manuel Bandeira, a identificação entre o fruto proibido de Eva e a maçã é quase inevitável, pois estes símbolos já estão imbricados na cultura popular. Mas se lá, devorá-la é um descaminho, aqui, ousar mordê-la é talvez necessário para que o poético se revele e nós, leitores, nos iniciemos na poesia de Fernando Campos. Em seu universo, tal como a musa de Insolvência, a fruta não tem nome. Identifica-se com a própria poesia: em nossas mãos (despidas) ela pode denunciar seu passado de flor e de queda.
Outros elementos, nessa perspectiva, surgirão para o leitor como vinho, pão, sopro de vida, responso, templo, dentre vários outros. Alguns poemas beiram a ideia de batismo, no sentido que lhe damos aqui, de iniciação à poesia. Em “A santa cólera”, cabe à mão esquerda, que escreve torto, ser direcionada pela caneta, que se livra de suas loucuras em áspero cimento-túmulo. O ato que expulsa o mal, como um batismo, faz o poeta reencontrar a própria voz em novo estado harmônico. Em “Nudez”, o terreno fértil da epiderme se depara com a bofetada, a cara contra a parede. Por fim, em “Clarividente”, a poesia pontua: para seguir um caminho diferente, prefere-se a seda, a voz maviosa ou mesmo o gesto simples. A poesia de Fernando Campos, nesse sentido, muitas vezes sugere e sussurra, outras vezes provoca o riso, essa herança preciosa dos modernistas.
A fruta que abre o livro torna a aparecer no “Poema vespertino”. Continua à frente do eu-poético, que a observa. Esquecida, chegam-nos as vozes de longe. Crianças e velhos frequentam, então, o poema. O silêncio se faz e as palavras, talvez, permaneçam em estado de dicionário. Devorar esta fruta é, de certo modo, também renunciar ao ato e esquecê-la. Diminuída a exterioridade, se a palavra puder ser esta, o céu azul da tarde poderá ser notado como no verso de Drummond.
Assim, a poesia de Fernando Campos nos traz o seu melhor sumo, de forma um tanto desinteressada, buscando a compreensão do ser, que se investiga. É nesse sentido que nos deparamos, por exemplo, com o deus das crianças, que aparece no livro com leveza e graciosidade. As imagens do cotidiano e as rememorações são um ponto alto: o retrato que instiga as lembranças da infância, com quintal, parreira e caramujos; as crianças fazendo o dever da escola ou surgindo no momento em que se trabalha a farinha e o fermento; o pai, modelo inexprimível; entre outras.
Essas imagens, ou se poderia dizer essa linguagem, pois tudo é trabalho poético, permitem que se constate o domínio que autor possui dos procedimentos literários, das técnicas que a poesia exige e que seu criador veio experimentando ao longo de sua vida. Detentor de um estilo próprio, Fernando Campos elabora ao mesmo tempo uma poesia intertextual. Muitas vezes, técnica e diálogo vêm juntos. Observe-se, por exemplo, um viés paródico em determinados versos que, ao trazer uma estrutura conhecida pelo leitor, surpreende ao apresentar um elemento novo ou inusitado. Esse procedimento se encontra em vários poemas e pode ser visto em versos como “vejo a vida como a vida mente” ou como “ainda ontem chorei de maldade” ou ainda “dei  pra maldizer o passado”. Outras vezes, mais sofisticado, o procedimento intertextual se faz de forma diferente como ocorre, por exemplo, no verso “hoje vi chover como cão sem dono”, que se faz acompanhar, adiante, pela frase “Oh, modorra e pluma!”, num evidente diálogo com João Cabral de Melo Neto. As alusões são inúmeras e é rico o diálogo com a tradição.
Fernando Campos, que também pratica outras artes, é um artesão incansável. Sua poesia é fruto de muito trabalho e reflexão. Experiente, afasta o poema infante como quem recusa uma refeição, para tomá-lo mais adiante, buscando o sabor desconhecido, a sonoridade conveniente, a agudeza da palavra. Se algumas vezes é mais engenhoso e o poema surge denso, indigesto à primeira vista, não faz mal. Há sempre aqueles que, entre os convivas, preferem um sabor agridoce acompanhando o repasto.


Marcos Vinícius Teixeira

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Caratinga na tela de Gato


A pintura abaixo é do artista plástico Gato, que fez uma série de quadros abordando a cidade de Caratinga-MG. Presente que me foi dado pelo poeta Fernando Campos, a tela traz elementos que desapareceram ou foram danificados por obras ao longo do tempo. O Cine Brasil, que cheguei a frequentar, foi destruído. Já o coreto de Oscar Niemeyer passou por estranha intervenção e foi descaracterizado. Virou um estorvo. Guardo a cidade na pintura do Gato dependurada em minha morada e em minha memória. A Petra Itaúna que se cuide!




sábado, 26 de julho de 2014

Poema taxativo


Não há sentido na alvorada
no amanhecer diário e monótono
e milagroso.
Não há sentido nas religiões
e nas suas diversas dicotomias.
Uma voz vinda não se sabe de onde
sussurra baixinho
que deus não vai ajudar,
que a eternidade não existe,
que a alma se dissolveu nos neurônios.
O amor não existe ou é fogo
ou indefinível sinal de teimosia.
A vida se empilha nos prédios
esparrama-se pelos cantos
à noite cobre-se com papelões
embaixo de marquises.
O vai-e-vem do dia-a-dia
me deixa perplexo e vazio.
O corpo
esse pacote vertical de sangue
apodrece a cada instante vivido.
Uma voz vinda de qualquer lugar
tem coragem de dizer
que os médicos não vão ajudar.
Mas é preciso viver
Alimentar o ser
vestir o pé, o peito, botar camisa
o cinto corrige o corpo disforme.
Afinal, viver é inevitável.
Então levanto-me para a vida
lavo meu rosto, visto-me
escovo meus dentes cariados
disfarço meu mal cheiro
perfumo quem apodrece vivo.
— É preciso viver! digo eu resoluto.
Pego o elevador
cumprimento as pessoas.
No ônibus
dou bom dia ao motorista
ofereço moedas ao cobrador.
No trabalho sorrio
cumpro todas as obrigações
sem demonstrar cansaço.
Volto apertado no ônibus
(já não digo boa tarde, boa noite).
Faço a compra do mês
e durante os dias que se seguem
vejo a despensa se esvaziar
e me esvazio também.
Um homem que vive só
sabe que a vida não vale a pena
qualquer jeito de viver.
Em casa, sozinho no escuro,
no silêncio, na ausência de tudo
não é preciso fingir
não é necessário saber.
Os acontecimentos do mundo
sevem para quê?
No entanto a solidão
não suporta a ausência dos amigos.
Por fim recorro ao telefone
(este aparelho útil aos negócios)
sei que não vão poder vir,
sempre ocupados em enriquecer,
mas haverá uma festa na casa da Joana
ou da Letícia ou da Marília, pouco importa
é uma amiga alegre.
Então visto-me para a vida alegre
enfrento o trânsito noturno
a correria selvagem da cidade
chego vivo. Todos me cumprimentam
Olá! Quanto tempo! Você sumiu!
Puxo a cadeira, pego o copo vazio
bebo, levanto, abraço todos
a vida parece valer a pena,
canto às mulheres traídas
à nossa vida difícil.
Então a vida é possível?
Essa vida alegre, fingida
e besta dos programas da tv?
Volto bêbado para casa
o apartamento que chamo de lar
me recebe indiferente.
O dia amanhece,
levanto-me, visto-me,
apronto-me para sair,
mas não saio.
Não posso continuar
tão preocupado em sustentar um corpo
volto para a cama, tento dormir.
Que venha o silêncio, a fome,
o mau cheiro, que o telefone toque.
Deitado, espero pela morte, que não vem
teimosa morte...
tenhamos paciência com ela.


Marcos Teixeira
21.02.06